Entrevista com Luis R. Cancel sobre o Museu Nacional do Latino-Americano

English version below

Luis R CancelVocê lê abaixo a minha conversa com Luis R. Cancel, sobre o National Museum of the American Latino (Museu Nacional do Latino-Americano), que está sendo criado pela Smithsonian Institution.

Cancel foi extremamente gentil e acessível, fornecendo informações detalhadas do andamento do projeto. É empolgante poder observar o momento de germinação de um museu americano, particularmente de um que pode gerar tantos ricos debates.

A entrevista ocorreu em 22 de março de 2016.

  1. Qual a principal ideia por trás do National Museum of the American Latino (NALM)?

O presidente Obama assinou, em 8 de maio de 2008, a lei federal 110-229 (S. 2739), estabelecendo uma comissão bipartidária para estudar a possibilidade de criação de um National Museum of the American Latino. É importante ressaltar que o latino-americano do nome tem um significado e uma intenção muito específicos nos olhos dos líderes que elaboraram essa legislação. A missão deste museu é contar uma história sobre a história, arte e cultura americanas, tal como vividas e experienciadas pelos cidadãos americanos de origem (ou com background) latinoamericano.

Muitos estudiosos, artistas, historiadores e líderes políticos concordam que a história americana ensinada nas escolas e padronizada nos textos escolares, utilizados em todos os níveis nos Estados Unidos, não contam a história toda. Eles omitem grande parte da informação sobre indivíduos de origem hispânica e não disponibilizam informação sobre o envolvimento da Espanha na exploração e colonização da América do Norte.

Por isso, a Comissão entitulou seu relatório final “Elucidando a História Americana para Todos” (original em inglês: “To Illuminate The American Story For All”), enfatizando, assim, que este museu tem por objetivo contar uma história americana sob um prisma mais inclusivo.

É possível visitar o website da Comissão e baixar uma cópia do Relatório, no site American Latino Museum.

A Comissão sabe, por experiência, que são necessários vários anos para que o governo federal crie um novo museu. Por exemplo, em setembro deste ano [2016], o Smithsonian vai abrir a público seu National Museum of African-American History and Culture, um museu que levou mais de 25 anos para ser criado. Foram 14 anos para o Congresso aprovar a legislação, pois um grupo de senadores sulistas era contra a criação de tal gênero de museu.

Nós estamos enfrentando um obstáculo semelhante no Congresso, atualmente, em que a resistência vem mais da Câmara dos Deputados. Mas estamos otimistas que a legislação para a criação do NALM vá caminhar assim que as eleições presidenciais de 2016 estejam concluídas.

  1. Como o novo museu pretende se relacionar com a vida quotidiana do público?

O plano da Comissão para o museu necessita de várias iniciativas para alcançar um público mais amplo, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior.

Em primeiro lugar, a Comissão reconheceu que já existe um grande número de museus e centros culturais em todo o país cuja missão é a preservação e a celebração da cultura de porto-riquenhos, mexicano-americanos e cubano-americanos ,e também de outras culturas latinas – algumas dessas organizações existem há 40 anos ou mais. Portanto, nosso objetivo é que o NALM use uma significativa parte de seu orçamento e de seus programas para ajudar a promover o compartilhamento de pesquisas, coleções e exposições entre essas organizações culturais aliadas.

Em segundo lugar, queremos que o museu implemente recursos online para que a informação sobre o acervo esteja prontamente acessível a um público maior. Isso poderia permitir ajudar as organizações culturais latinas de ação regional a disponibilizar suas coleções online. A ideia é permitir acesso rápido a um conteúdo acadêmico sobre artistas latino-americanos e movimentos artísticos, mais ou menos como o trabalho que Mari Carmen Ramirez realizou com o International Center for the Arts of the Americas no Museum of Fine Arts de Houston. Porém, o trabalho dela é dirigido a todas as Americas, enquanto que o NALM irá concentrar-se nos EUA, estabelecendo algumas ligações claras com certos países e regiões que tenham trazido um grande contingente populacional para os Estados Unidos. O Brasil é um desses países.

Eu lutei muito, na Comissão, para assegurar que não estaríamos criando o museu nacional “hispânico”, pois isso teria eliminado qualquer conexão direta com o Brasil. E tenho prazer em dizer que meu argumento foi fortemente apoiado e que nós insistimos no uso da palavra “latino” em nosso relatório final e na legislação proposta.

Em terceiro lugar, o trabalho do NALM na área da educação irá trazer conteúdo online que professores de todos os níveis poderão incorporar nos trabalhos e exercícios dos alunos, nas aulas de História Americana, Literatura e Inglês. Isso irá ajudar enormemente a completar a informação que falta sobre as contribuições latino-americanas à sociedade americana.

  1. O NALM será um “museu do século XXI”?

Parte do que disse anteriormente mostra algumas das iniciativas que o NALM vai lançar, utilizando não apenas a tecnologia para falar com o público mas – mais importante do que isso -, usando um modelo de operações que rejeitam o modelo monolítico institucional de Washington [capital do país], que foi construída a custa dos centros de arte regionais latinos. Indo na direção oposta, o NALM procurará criar fortes relações de trabalho colaborativo com essas organizações.

Este modelo colaborativo sugere também que o NALM pode ser instalado em um pequeno espaço no The National Mall [parque nacional que agrega monumentos, museus e o Congresso Americano, localizado na capital, Washington], permintindo que o museu utilize uma parte maior de seu orçamento e recursos para programas nacionais colaborativos de maior alcance territorial.

A Comissão também sugere que o NALM poderia tratar o “campus” cultural do Smithsonian, com seus 19 museus, como uma oportunidade de criar exposições para os outros espaços de museus. A ênfase será na colaboração e na parceria, não na competição.

  1. Como o National Museum of the American Latino planeja se relacionar com outros museus dedicados à América Latina?

A história da presença latina nos EUA antecede até a existência dos Estados Unidos como nação, portanto os artefatos culturais que registram esta história podem ser encontrados não apenas nas sociedades de História americanas e no acervo dos museus, mas também em coleções na Europa e nas Américas.

Haverá necessidade urgente de dedicar recursos para pesquisa, catalogação de pinturas, mobiliário, bens de comércio e memorabilia, de modo a permitir que os estiduosos encontrem a significância histórica e os significativos modos pelos quais essas coleções contam a história dos pioneiros latinos em um país que era ainda incipiente.

Uma das minhas histórias preferidas data de 1776. Naquele ano, Thomas Jefferson estava na cidade da Filadélfia, cercado por dúzias de delegados das 13 colônias britânicas, debatendo a redação da Declaração de Independência, o documento que faria nascer uma nação independente no Novo Mundo.

Saltando daquela cidade da costa do Atlântico e atravessando o que hoje chamamos de Continente Norte Americano (e passando sobre centenas de tribos indígenas e confederações pelo caminho), chegamos em uma bonita colina arborizada na costa do Pacífico, onde Juan Bautista de Anza decidiu ser o lugar ideal para estabelecer o Presidio Real de San Francisco. Em 17 de setembro de 1776, ele ordenou a José Joaquin Moraga que ali estabelecesse o forte. Com isso, ele estava plantando a semente do que seria, mais tarde, a cidade de São Francisco, na Califórnia.

Portanto, temos, no mesmo ano de 1776 e com uma diferença de meses, os sujeitos de duas nações rivais – Inglaterra e Espanha -, cada uma em um lado do mesmo continente, reivindicando a mesma terra entre elas. Esta história complexa, precisa, é claro, ser contada com a colaboração de inúmeros estudiosos e acervos, que estão por todo o território das Américas e da Europa.

  1. Qual será o papel da internet e da mídia social neste novo museu?

O NALM tem feito uso extenso da mídia social como um meio de defender esta causa, com mais de 350.000 seguidores no Facebook, Twitter e na web. Isso faz do NALM, que ainda não é um museu, uma das iniciativas culturais mais acompanhadas do Smithsonian.

O Friends of the National American Latino Museum tem sido nosso principal grupo de advocacy [ou seja, de defesa da causa de criação do museu], ajudando a levantar apoios e visibilidade para aqueles que desejam que o museu seja criado. A página do Facebook desse grupo é um bom meio de estar em contato com os eventos e as novidades do projeto.

  1. De que modo você acha que o National Museum of the American Latino poderia realizar parcerias com as instituições culturais brasileiras?

Muitas gerações de artistas brasileiros tiveram presença significante nos EUA. De Cândido Portinari a Helio Oiticica, Vik Muniz e Cildo Mireiles, o trabalho desses artistas estão no acervo de instituições americanas (como a Biblioteca do Congresso, o MoMA e o Guggenheim, só para citar algumas) e sua contribuição cultural foi impactante.

Posso imaginar várias maneiras pelas quais o NALM poderia colaborar e se tornar parceiro de museus brasileiros de forma mutuamente benéfica. Por exemplo, intercâmbio de curadores que permitiria, em seis meses, que curadores de cada museu selecionassem um artista ou período para estudar e, eventualmente, criar uma exposição a partir do acervo do museu parceiro.

Outro exemplo é a publicação e a disseminação de ensaios, que poderiam ajudar a documentar a cultura brasileira nos EUA – são essas as histórias às quais o National Museum of the American Latino dedicará sua missão de preservação e disseminação; trabalhando juntos, curadores brasileiros e americanos poderão usar essas histórias para alcançar um público ainda maior.

Agradeço pelo seu interesse neste futuro museu.

 

Luis R. Cancel – Gestor cultural, artista e conceituado administrador público, possui uma carreira de mais de 30 anos onde se destaca como diretor de diversas agências governamentais e outras sem fins lucrativos. Até 2011, atuou como Secretário de Cultura da Cidade de San Francisco, (2008 – 2011) onde supervisionou a San Francisco Arts Commission. Previamente, ocupou posição semelhante na Cidade de Nova Iorque (1991-1994), onde como Secretario, pode aumentar substancialmente o orçamento para a Cultura.

Separador

 

National Museum of the American Latino – A conversation between Claudia Porto and Luis R. Cancel in March 22, 2016

  1. to: What’s the main idea for the National Museum of American Latino?

Cancel: President Obama signed Federal law 110-229 (S. 2739) on May 8, 2008 that established a bi-partisan Commission to study the possible creation of a National Museum of the American Latino. It is important to point out that “American Latino” has a very specific meaning and intent in the eyes of the leaders who crafted the legislation. The mission of the proposed museum is to tell a story about American history, art and culture as lived and experienced by American citizens of Latin American background or origin.

Many scholars, artists, historians and political leaders have come to believe that the American history taught in schools and in standardized textbooks used at all grade levels in the USA did not tell a full story – it omitted much information about individuals of Spanish-speaking origin and it did not convey information about the early involvement of Spain in exploring and colonizing North America.

That is the reason that the Commission titled its final report “To Illuminate The American Story For All,” to emphasize that the museum would attempt to convey a more inclusive telling of American History. Readers can visit the Commission’s website to obtain a copy of the final report.

The Commission knows from experience that it takes the Federal government many years to establish a new museum, as an example this coming September the Smithsonian will open to the public the National Museum of African-American History and Culture, a museum that took more than 25 years to establish. It took 14 years just to get the legislation approved by Congress, due to a number of Southern Senators who objected to the creation of the museum. A similar obstacle exists in the present Congress, the resistance is mostly located in the House of Representatives but we are optimistic that once the 2016 Presidential elections are concluded, that the legislation to establish the NALM will move forward.

2. Porto: How does the museum intent to relate to people’s everyday life?

Cancel: The Commission’s plan for the museum calls for several initiatives that will allow it to reach a wide audience both in the USA and beyond. Firstly, the Commission recognized that there already exists a large number of museums and cultural centers across the country whose mission was the preservation and celebration of Puerto Rican, Mexican-American, Cuban-American and other Latino culture – some of these organizations have been in existence for 40 or more years. We therefore intend the NALM to use a significant part of its budget and programs to help promote the sharing of research, collections and exhibitions among these allied cultural organizations.

Secondly, program plans also call for NALM to establishment online resources to make collection information readily accessible to a wide audience, this would include helping the regional Latino cultural organizations to bring their collection information online. The idea here is to make readily available scholarly information about American Latino artists and art movements, similar to Mari Carmen Ramirez’s effort with the International Center for the Arts of the Americas (http://www.mfah.org/research/international-center-arts-americas/ ) at the Houston Museum of Fine Arts. Her effort is aimed at all of the Americas and NALM will focus on the United States with some clear links to certain countries and regions that have contributed major populations to the USA, Brazil being one of those countries.

I fought very hard within the Commission to make sure we were not creating the national “Hispanic” museum, since this would have eliminated any connection with Brazil. I’m pleased to say that my argument was strongly supported and we insisted on the use of the word “Latino” in our report and in the proposed legislation.

Thirdly, the NALM education efforts will bring online curriculum materials that teachers at all grade levels can incorporate into their teaching assignments in American History, Literature and English classes and this will go a long way toward helping to fill in missing information about American Latino contributions to American society.

3. Porto: Will the museum be a “21st century museum”? If so, in what way?

Cancel: I believe that some of my earlier answers illustrate some of the initiatives that the NALM will launch that use not only technology to reach audiences, but more importantly, a model of operations that rejects the model of the monolithic institution in Washington, DC that is built at the expense of the regional Latino art centers. Instead NALM will seek to forge strong collaborative working relationships with those organizations. This collaborative model also suggests that NALM can be housed in a smaller museum facility on The Mall, allowing it to allocate more of its budget and resources towards distributed, collaborative national programs.

The Commission also suggested that NALM could treat the cultural “campus” of the Smithsonian, with its 19 museums, as an opportunity to mount exhibitions that can take place in those other museum facilities. Again, the emphasis will be on collaboration and partnership and not on competition.

4. Porto: How is the National Museum of the American Latino planning to relate to other Latin American museums?

Cancel: The story of the Latino presence in the United States predates even the existence of the USA as a nation, so the cultural artifacts that record that history can be found not only in American historical societies and museum collections but also in collections in Europe and the Americas. There will be an urgent need to dedicate resources to research, cataloguing paintings, furniture, trade goods and memorabilia in ways that will allow scholars to find the historical significance and the meaningful ways that those collections tell the story of Latino pioneers in the fledgling country.

One of my favorite anecdote’s concerns the year 1776. In that year we find Thomas Jefferson in the city of Philadelphia surrounded by dozens of delegates from the thirteen British colonies debating the wording of the Declaration of Independence, the document that will create a new independent nation in the New World.

Leaping from that Atlantic coast city clear across what we today call the North American Continent, and passing over hundreds of Indigenous tribes and confederations along the way, we land on a beautifully wooded hill top on the Pacific Coast, where Juan Bautista de Anza decides this will be the ideal spot to establish El Presidio Real de San Francisco, he orders José Joaquin Moraga to actually establish the fort on September 17, 1776, in that act, planting the seed that would become the City of San Francisco.

There you have in 1776, within months of each other, the subjects of two European rivals, England and Spain, on opposite sides of the same continent, claiming the same landmass in between. Clearly, that complex story must be told through the collaboration of many scholars and museum collections that are distributed throughout the Americas and Europe.

5. Porto: What about the role of web and social media in the new museum?

Cancel: The NALM has made extensive use of social media as a tool for advocacy with nearly 350,000 followers on Facebook, Twitter and on the web. This makes the NALM, which is not yet a museum, one of the most followed cultural initiatives at the Smithsonian.

The Friends of the National American Latino Museum has been the primary advocacy group helping to raise support and visibility for those who want the museum to be established. Their Facebook page is a good place to stay in touch with events and news about the project.

6. Porto: In which ways do you think the National Museum of the American Latino could build partnerships with Brazilian cultural institutions?

Cancel: Many generations of Brazilian artists have had a significant presence in the United States. From Candido Portinari to Helio Oiticica, Vik Muniz and Cildo Mireiles, their works are in American collections (The Library of Congress, MoMA, Guggenheim to name a few), and their cultural contributions have had impact.

I can see so many ways that NALM can partner and collaborate with Brazilian museums that would be mutually beneficial. For example, curator exchanges that would allow, over the course of six months, for curators from each museum to select an artist or period to study and eventually lead to an exhibition drawn from the other museum’s collection.

Another example is in the area of publishing and disseminating essays that would help to document the Brazilian cultural presence in the United States – all of those stories are what the National Museum of the American Latino will dedicate its mission to preserve and highlight and working together, Brazilian and American curators will be able to reach a wider public with that history.

Thank you for your interest in the future museum.

 

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