Entrevista: Wikimedia, Brasil e museus

Rodrigo Padula

No início do ano, estive em um evento que comemorava os 15 anos da Wikimedia. Nos dias 15 e 16 de janeiro, a comunidade celebrou simultaneamente em 130 cidades por todo o mundo. Foi assim, na Biblioteca Parque, que conheci Rodrigo Padula, coordenador de Projetos do Grupo Wikimedia Brasileiro de Educação e Pesquisa (saiba mais sobre tudo isso ao final desta página). Conversamos um pouco sobre Wikimedia, patrimônio e museus e eu o convidei para a entrevista empolgante que você lê abaixo:

1. Fale um pouco sobre o conceito do conteúdo livre

Consideramos como conteúdo livre os conteúdos em domínio público ou conteúdos com licenças permissivas como a Creative Commons, que permitem o uso, modificação e redistribuição dos conteúdos sem a necessidade de solicitação de autorização do autor para algumas finalidades.

A liberdade do conteúdo é fundamental para sua disseminação e evolução. Enquanto os conteúdos fechados com direitos autorais ficam estagnados, os conteúdos abertos, livres, possuem vida útil maior, pois permitem atualização e redistribuição. Isso pode ser constatado facilmente através do ciclo evolutivo de artigos da Wikipédia e o grande volume de informações atualizadas diariamente por um número gigantesco de colaboradores ao redor do mundo.

2. Na área da cultura, há algumas resistências quanto ao copyleft, por
vários motivos. Quais os benefícios em adotar uma visão diferente do
copyright?

Licenças abertas dão vida longa ao conteúdo, permitindo correções, melhorias e redistribuição. Isso reduz a dependência do autor original do conteúdo, abrindo portas para a cooperação, construção e evolução colaborativa do conhecimento embutido.

Outro ponto importante é a democratização do acesso a esse tipo de conteúdo, que é fundamental para a sociedade.

Vários departamentos e organizações governamentais financiam, com verbas públicas, a produção de conteúdo educacional e cultural. Muitas vezes, esses conteúdos possuem restrições de redistribuição e atualização, havendo a necessidade constante de pagamento por novas edições e qualquer tipo de melhoria. Neste sentido, penso que obras e conteúdos produzidos com financiamento público deveriam automaticamente receber licenças livres.

3. A Wikimedia tem alguns projetos ligados a patrimônio histórico, realizados inclusive no Brasil. Quais são eles?

Temos várias iniciativas e projetos visando a preservação e documentação do patrimônio histórico mundial. Criamos artigos, salvamos imagens e geramos todo tipo de material visando a preservação da história em plataformas abertas que permitam o rápido e fácil acesso.

A iniciativa mais bem sucedida neste sentido é o concurso fotográfico Wiki Loves Monuments, que visa a catalogação e inclusão de imagens dos principais monumentos tombados globalmente em nosso repositório Wikimedia Commons. Este concurso consta, desde 2011, como o maior concurso fotográfico do mundo, segundo o Livro Guinness de Records. É realizado anualmente em vários países e o Brasil participa desde 2015.

Outra iniciativa que tem gerado um grande volume de conteúdo sobre patrimônios históricos são as parcerias GLAM (Galleries, Libraries, Archives and Museums) que visam a digitalização e incorporação de acervos históricos em nossos repositórios, democratizando o acesso a essas informações (que antes só estavam disponíveis somente) para todas as pessoas ao redor do mundo com acesso a internet.

No Brasil, ainda não temos nenhum parceiro formalizado, mas estamos conversando com alguns potenciais parceiros desde 2014.

4. Acha que há espaço para os pequenos museus brasileiros criarem projetos colaborativos com a Wikimedia, visando a divulgação de seus acervos, espaços e conhecimento?

Com certeza, instituições menores geralmente possuem menos recursos para criar um projeto próprio de digitalização e acervo online, o que dificulta e diminui o acesso aos conteúdos e obras ali disponíveis. Normalmente, insituições menores demandam um trabalho menor e geralmente menos burocracia para esse tipo de parceria.

Neste momento, estamos buscando parceiros de menor escala para iniciarmos alguns projetos pilotos e, futuramente, expandir para acervos e instituições maiores.
Pequenos museus possuem um grande potencial a ser explorado e demandam muito apoio e parcerias como estas propostas nas iniciativas GLAM para divulgação e amplicação do acesso aos seus acervos.
Separador
Rodrigo Padula é coordenador de Projetos do Grupo Wikimedia Brasileiro de Educação e Pesquisa,  mestre em informática pela UFRJ e doutorando em computação pelo Instituto de Computação na UFF.
A Wikimedia é o nome coletivo para o movimento Wikimedia, que gira em torno de uma série de projetos interrelacionados, incluíndo Wikipédia, Wikcionário, Wikiquote e outros.
Uma wiki é uma coleção de páginas interligadas, em que cada uma pode ser visitada e editada online por qualquer pessoa (inclusive você, que está lendo esta entrevista).
A Wikimedia Foundation é uma fundação sem fins lucrativos “dedicada a encorajar o cresdimento, desenvolvimento e distribuição de conteúdo livre, multilingual e edicativo, bem como permitir acesso a todo o conteúdo desses projetos wiki gratuitamente.
O Grupo Wikimedia Brasileiro de Educação e Pesquisa é um grupo “idealizado com a participação de professores, colaboradores e pesquisadores de várias instituições nacionais participantes do Programa de Educação da Wikimedia no Brasil, que visa integrar a comunidade acadêmica ao movimento Wikimedia, criando um ambiente mais amigável e ágil para o desenvolvimento de projetos, pesquisas, eventos dentre outras atividades.

 

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