Entrevista com o Museu das Coisas Banais

Entrevistei Juliane C. P. Serres, Professora Adjunta do Curso de Museologia (PPGMP – ICH) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no Rio Grande do Sul, sobre um museu novinho que é um dos meus “xodós” no Brasil: o Museu das Coisas Banais. Um projeto digital, embasado, coerente, inovador e que vem conquistando o amor de muita gente: já tem mais de 4.657 seguidores no Instagram e 2.740 curtidas no Facebook.

  1. Como surgiu o projeto Museu das Coisas Banais? Qual a problemática que ele se propunha a abordar? A ideia do projeto surgiu a partir de diálogos “quase poéticos” com alguns alunos do Curso de Museologia da Universidade Federal de Pelotas (RS) sobre o destino das coisas pelas quais temos apreço. Diferente daqueles objetos utilitários que sobrevivem enquanto cumprem sua função, alguns objetos sobrevivem porque tem um valor especial para seus proprietários, independente de sua utilidade prática. Por qual motivo conservamos esses objetos, por que eles são importantes para nós, o que eles significam, evocam, narram? Por que não criar um museu para onde poCampanhas do Coisas Banaisssam ir esses objetos íntimos, cotidianos, banais, cujo valor é, na maioria das vezes, afetivo.Assim surgiu o embrião do Museu das Coisas Banais, um museu no ciberespaço com o objetivo de preservar e compartilhar objetos de pessoas comuns, objetos que chamamos banais mas que tem grande poder de evocação e mesmo transcendência.  O MCB aborda a problemática desses objetos cotidianos que todos preservamos, que não estão representados nos museus, que dificilmente podemos compartilhar para além de nosso círculo íntimo e nosso tempo de vida, objetos que em nossa ausência muito provavelmente se perderiam, objetos biográficos, objetos de rememoração, de afeto, objetos que falam sobre nós e nossa sociedade.
  2. A ideia enfrentou críticas negativas, talvez pela sua abordagem inovadora? A principal crítica talvez tenha sido sobre a ausência de suportes materiais, nossos acervos. Embora tenham um referente fora do ciberespaço, uma materialidade, à título de acervo museológico propriamente dito, já nascem na forma digital.Outra questão (que não chega a ser uma crítica direta, mas representa um problema inicial) é por que “preservar” objetos comuns, aparentemente sem importância? Nossa proposta não é fomentar um narcisismo virtual, onde as pessoas possam expor sua privacidade. Ao contrário, muitas pessoas sequer desejam ser identificadas no site do museu, elas querem compartilhar suas memórias, expor seus objetos, talvez encontrar algum tipo de identificação com outros doadores ou uma escuta.Essa questão de preservarmos no mundo digital também causou e ainda causa um certo estranhamento, muitas pessoas nos procuram pelas redes sociais, gostariam de ter seus objetos no MCB, mas não querem se desfazer deles, justamente pelo valor afetivo. Então, temos que explicar constantemente que não recebemos o objeto em si, mas a imagem e a história. Isso é um desafio, nem sempre a mensagem fica suficientemente clara.Alguns podem não considerar o MCB um museu, pela ausência de acervo físico. Nós entendemos que é um museu, que cumpre as funções museológicas de colecionar, conservar, pesquisar e expor, ainda que de maneira virtual. Entendemos que o MCB é um exemplo de museu possível, que, integrado à nova museologia, responde às demandas sociais contemporâneas, trabalha com memórias plurais e aproxima o público dos museus, a partir da possibilidade de interação a qualquer hora, de qualquer lugar, desde que conectado à rede.O Museu também atinge um público muitas vezes não muito familiarizado com museus, mas absolutamente familiarizado com as “novas” tecnologias. A maioria de nosso público é jovem e seus feedbacks em relação do museu são positivos.O mundo museológico institucionalizado pode ser um pouco conservador, mas cada vez mais tem sido orientado a repensar suas posições, há espaço para novas formas de museus, como o nosso. Costumamos dizer que o MCB é um projeto experimental – a Universidade, os Cursos de Museologia, devem ser espaços de promover a criatividade, a experimentação. O tempo nos dirá qual será seu alcance e contribuição à museologia. Por ora, tem sido uma experiência bem interessante para todos os envolvidos e uma ideia bem recebida pelos usuários e pela comunidade em geral.
  3. Quem é quem no Museu das Coisas Banais?A equipe é realmente interdisciplinar, formada por alunos de graduação e pós-graduação da UFPel e colaboradores externos. Da UFPEL temos alunos da Museologia, da Antropologia, História, Ciência da Computação, Terapia Ocupacional, Design e do Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, pessoas formadas em Museologia, Artes Visuais, Sociologia, Turismo.  Aos poucos estamos organizando os Programas do MCB e então cada pessoa/grupo ficará responsável por um Setor. Na prática já funciona assim, cada um aporta seu conhecimento ao projeto e há ações, como as exposições, por exemplo, que envolvem o trabalho de todos. (Veja ao final da página a Ficha Técnica do MCB)
  4. De que forma o Museu desestabiliza (positivamente, é claro) o conceito tradicional de museu?
    Primeiro, pela proposta de preservar acervos no ciberespaço: a preservação é tão associada à materialidade, mesmo que os valores preservados sejam imateriais, e falar em preservar pressupõe a conservação do suporte físico de um bem. Nossa proposta é preservar a informação e imagem desse bem na rede, que por sua vez é vista muitas vezes como quase um “não lugar” ou um lugar difuso, “virtual”, em oposição a um mundo real/material, palpável, como são os acervos e museus que tradicionalmente conhecemos. Entendemos que a rede é um lugar onde a preservação é possível, sobretudo pela digitalização e difusão dos bens.
    O MCB também desestabiliza a ideia tradicional de museu ao propor a preservação de objetos banais, o próprio termo “banal” provoca reações. Os museus preservam, em geral, bens valiosos, raros, antigos, cujas marcas do tempo se inscrevem na materialidade dos objetos. Tem-se muitas vezes a ideia de que esses objetos preservados nos museus sofreram uma decantação histórica (e, de certo modo, sim), mas eles também foram frutos de escolhas de diferentes contextos, onde um grupo/instituição decidiu o que deveria preservar. São objetos que na maioria das vezes contam um determinado tipo de narrativa, uma visão de História, até pouco tempo marcada por uma perspectiva elitista e excludente. Ao introduzir a categoria “banal”, instigamos uma reflexão mais profunda, para se pensar a cultura material e as coleções de modo integrado à sociedade, todo o tipo de objeto é capaz de conduzir uma narrativa e uma visão histórica. Introduzimos o questionamento sobre o que é digno de ser musealizado.
    Outra contribuição é que, sendo um museu virtual, é absolutamente dinâmico, aberto, interativo. Assim como toda mudança já sentida no campo museal que é marcada pelo surgimento de outras lógicas e demandas sociais, o aparecimento da informática e do ciberespaço impôs ao museu e a museologia um deslocamento de olhar, uma nova e – potencialmente – interativa forma de comunicar e de dialogar com o público. Trouxe também uma preocupação com um patrimônio até então desconsiderado, o patrimônio digital. Essas questões sempre causam rupturas e conflitos dentro do campo, mas também ajudam na problematização e na construção da Museologia enquanto disciplina.
  5. Quais os resultados alcançados até agora?
    O MCB vem tendo uma grande aceitação do mais variado tipo de público:
    – o acadêmico, inicialmente reticente por se tratar de uma proposta de museu “diferente”, tão logo conhece a experiência a considera inovadora e interessante, como pudemos perceber em apresentações do MCB em eventos acadêmicos;
    – a comunidade em geral também recebeu muito bem a proposta, prova são as doações, até o momento mais de 250 objetos, considerando que o MCB completou um ano, consideramos o número positivo.
    Outra maneira de medir o alcance do projeto é através de nossas redes sociais.  No Instagram, até outubro tínhamos mais de 3.500 seguidores, que é um nível básico de interação, ainda temos os comentários e compartilhamentos, dados sobre os quais ainda estamos trabalhando, de comentários são mais de mil, o que denota níveis mais aprofundados de interação. No canal do Youtube, foram 1.187 visualizações. O Facebook do MCB tem mais de 2,7 mil seguidores.
    Conhecemos um pouco nosso público, do Instagram na sua maioria são pessoas relacionadas ao mundo da cultura, no Facebook são os mais variados públicos, não obedece um perfil definido. Sabemos apenas que 70% do público é feminino, 30% masculino. A faixa etária de 64% de nosso público tem entre 18 e 34 anos, sendo que 40% de nossos usuários são frequentes, 60% são de novos usuários. O MCB também tem perfil no Twitter.
    Além do mundo virtual, embora não tenhamos um local físico, realizamos várias ações com a comunidade. Por exemplo:
    – entrevistas com vendedores e usuários do Mercado de Pulgas de Pelotas, uma feira semanal que ocorre junto ao mercado público da cidade, entrevistamos as pessoas para conhecer suas relações com os objetos, uma vez que nessa feira ocorre a venda de todo tipo de objetos; alguns vídeos já estão disponíveis em nosso canal do Youtube.
    – outra ação que realizamos que teve um significativo impacto foi a coleta de acervos de em duas escolas, com um grupo de crianças, elas apresentaram objetos de afeto e narraram suas histórias, esses objetos passaram a formar parte de nosso acervo. Sobre essa ação, realizamos uma exposição chamada: “Objetos [nada] Banais da Infância”. Outras escolas tem nos procurado para replicar a ação. Estamos trabalhando em uma ação educativa permanente com essa proposta.
  6. Quais os planos para o futuro?
    Além dos diversos projetos de divulgação e comunicação que estão ocorrendo on e off line, também estamos empreendendo, através de um grupo de estudos, discussões sobre questões teórico-práticas da museologia, museus virtuais e possibilidades das mídias sociais. Intencionamos promover reflexões e apresentá-las nos meios científicos disponíveis a fim de contribuir com o diálogo sobre o tema. Como etapa realmente importante no campo da praxis museológica, também estamos realizando um diagnóstico do MCB, levantamento de documentação institucional e reavaliando os procedimentos de documentação, com vistas a construção de uma Política de Gestão de Acervos, adequada as nossas necessidades e um Plano Museológico.
    Outra ação que estamos iniciando é uma busca ativa de acervos junto a grupos específicos. A proposta inicial do museu era receber doações dos internautas, o que segue ocorrendo (e que pretendemos ampliar continuamente), porém, a experiência com as crianças evidenciou a potencialidade do MCB enquanto local para discutir questões sociais importantes a partir dos objetos e de sua busca ativa em diferentes grupos. Nesse sentido, iniciamos um projeto de coleta de acervos com os idosos no Asilo de Pelotas, iniciamos também outra ação, nesse mesmo perfil, com os moradores de rua da cidade. Nosso objetivo é estender a proposta a diversos grupos, como os refugiados, mulheres, comunidades, evidenciando o que os objetos, mais banais, são capazes de dizer, de testemunhar sobre os indivíduos e a sociedade.

Visite o Museu das Coisas Banais aqui:

Museu das Coisas Banais – Ficha Técnica:
Comunicação/Redes Sociais: Rafael Teixeira Chaves, graduando em Museologia, membro fundador do Museu;
Projetos: Daniele Borges Bezerra, Darlan De Mamann Marchi, doutorandos do PPGMP; Yuri Zivago Yung Grillo, graduando em Antropologia; Micheli Afonso – Professora Curso de Conservação e Restauro;Equipe Coisas Banais
Educativo: Rute Teixeira, doutoranda do PPGMP; Jessica Bitencourt, graduanda em História;
Acessibilidade: Desirré Nobre, graduanda em Terapia Ocupacional; Diogo Souza Madeira, Jornalista.
Pesquisa: Karina Marques Gomes, graduanda em História; Simone Assis graduanda em Antropologia; Tanize Garcia, Turismóloga.
Acervo/Documentação: Ana Rodrigues, graduanda em Museologia da UFRGS; Priscila Chagas Oliveira, mestranda do PPGMP; Danilo Rangel, graduando em Museologia;
Comunicação/Material gráfico: Julia Maria Capinos e Luiza Kovalscki Silva, graduandas em Design;
Produção Cultural e Marketing: Rafael Machado Rodrigues, graduando em Psicologia.
Audiovisual: Pedro Frio, graduando em Cinema;
Acervo/Informática: Luan da Silva Einhardt, graduando em Ciências da Computação;
Colaboração: Carla Gastaud, professora Adjunta do Curso de Museologia; Cláudia Turra, professora Adjunta do Curso de Antropologia;
Coordenação: Juliane Serres, professora Adjunta do Curso de Museologia.

Entrevista concedida por: Juliane Serres e Equipe do MCB.

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Um comentário

  1. Ei, Claudia, adorei. Muito interessante.
    Queria divulgar isso.

    Eu tenho um blog no site do Jornal O Tempo de BH e queria ver a possibilidade de publicar esta entrevista lá com seus devidos créditos!

    Um abraço

    BG

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