Curadoria participativa: entrevista com Daniela Alfonsí, Museu do Futebol

Entrevistei Daniela Alfonsi, diretora de conteúdo do Museu do Futebol, em São Paulo, sobre o excelente trabalho de curadoria participativa que eles realizaram na exposição Visibilidade para o Futebol Feminino. Foi uma das entrevistas mais bonitas, inteligentes e apaixonadas que já publiquei. E olha que eu só tenho publicado entrevista ótima (veja em Entrevistas).

1. Como surgiu a ideia da exposição?

Desde a abertura do Museu do Futebol, em 2008, o público e a própria equipe lamentavam o pouco espaço dedicado, na exposição de longa duração, à trajetória feminina no futebol. Tínhamos, então, uma placa e um vídeo na Sala Números e Curiosidades, que, dentre outros assuntos, é dedicada a outras modalidades do futebol, como o futsal e o futvolei. Vínhamos trabalhando o tema em eventos temáticos, geralmente no mês de março, ou em roteiros de visita educativa, além de ter já elencado o tema como uma possibilidade em mostras temporárias. Contudo, faltava dar ao tema um sentido maior dentro do Museu.

Passada a Copa do Mundo no Brasil, em 2014, iniciamos o planejamento de 2015 e foi quando lembramos que haveria, nesse ano, o mesmo campeonato para mulheres, mas a sede não seria o Brasil (a Copa do Mundo feminina, que ocorre desde 1991, foi no Canadá). E começamos a reparar que, no auge dos comentários sobre futebol em meados do ano passado, em todos os veículos de imprensa e nas mídias sociais, ninguém comentava sobre a modalidade feminina. Foi quando pensamos em mostrar ao público um tema que é da simpatia de todos, mas do qual ninguém se lembrava de comentar quando o assunto é “o” futebol.

A proposta nasceu, então, com um objetivo maior do que realizar uma exposição temporária usual, na qual você pesquisa, produz, exibe e depois de alguns meses, desmonta. O projeto é temporário e datado (escolhemos 2015 como nosso marco), mas o tema teria de ser incorporado definitivamente nas ações do Museu do Futebol, fosse em pesquisa, ações educativas ou culturais. Com isso, elaboramos essa “exposição dentro da exposição”: selecionamos algumas salas da exposição de longa duração (seis dentre 15 salas, além das áreas externas como a fachada e o hall de saída) para intervir como os novos conteúdos de modo a dar destaque ao tema, mas, ao mesmo tempo, integrá-lo à narrativa da exposição principal. Parte dos novos conteúdos será integrada à exposição de longa duração. A mostra “Visibilidade para o Futebol Feminino”, então, veio com o objetivo de também fazer essa atualização.

A exposição de longa duração narra como o futebol chega ao Brasil, sendo um esporte baseado nos clubes de elite dos centros urbanos no final do século XIX, e em poucas décadas, torna-se o esporte mais popular e aberto à participação de todos os estratos sociais, valorizando a expressão da população negra e mestiça ao atribuir a ela, certa singularidade do futebol brasileiro no cenário mundial. O Museu mostra como o futebol tornou-se, a partir dos anos 1930 e 1940, um dos elementos que define a ideia de Brasil para o mundo. É certa a proeminência das equipes masculinas na construção dessa trajetória, mas isso não significa que as mulheres não tenham um lugar na história, ou melhor, as mulheres tiveram a história delas, que correu à margem da “grande” história do futebol.

E por que o Museu – mas também antes dele a imprensa, a literatura e a historiografia do esporte – ignorava essa trajetória? O que estávamos esquecendo ao privilegiar e reiterar um ponto de vista? Essas foram as perguntas que nos motivaram para realizar a intervenção na exposição com o objetivo de ampliar nosso acervo e problematizar nossa narrativa central no Museu.  O projeto ganhou, assim, o sentido político de provocar o visitante a rever o que ele próprio – e nós todos – conhecemos sobre futebol.

Outro motivo, não menos importante, é o desenvolvimento de novos públicos para o Museu do Futebol: nossas pesquisas apontam que a maioria dos visitantes são homens (em 2009, logo após a abertura a razão era de 70% de público masculino para 30% de público feminino, um perfil que destoa da maioria dos equipamentos culturais). A aposta na ampliação do acervo a partir da história das mulheres no futebol pudesse, talvez, mudar um pouco esse nosso perfil (isso é algo que estamos medindo ao longo do ano, ainda não conseguimos afirmar se gerou ou não alguma mudança).

2. Ela foi pensada para ser colaborativa desde o início?

No final de 2014, conhecemos Silvana Goellner, historiadora e docente na UFRGS, na Escola de Educação Física. Ela também coordena o Centro de Memória sobre Esportes naquela universidade e vem pesquisando a participação feminina no futebol e em outros esportes desde o seu mestrado. Propusemos a ela a parceria para ser nossa co-curadora da exposição e também compartilhar os acervos de entrevistas e coleções digitalizadas das nossas instituições. Ela aceitou prontamente e começamos a nos reunir, no início de 2015, para formatar melhor o que seria a nova exposição. Coube a ela, dentre outras coisas, a difícil tarefa de eleger 24 jogadoras da seleção brasileira, de 1988 até 2015, para figurar na fachada do Museu (em bandeiras de mais de 4 metros de altura), nos trazendo não somente os nomes, mas fotos representativas de cada uma. Silvana foi sensível e perspicaz para negociar com as próprias atletas essa escolha do elenco e, em muitos casos, elas mesmas escolheram a foto que as representariam.

Quando nos demos conta, estávamos realizando a primeira curadoria compartilhada do Museu do Futebol. Foi algo que surgiu espontaneamente a partir da escolha para uma das partes da mostra e que passamos a valorizar fortemente em outras etapas do projeto, principalmente na pesquisa, na qual a busca nos acervos pessoais das atletas garantiu a realização de vídeos e outros itens que expomos, uma vez que carecemos fortemente de fontes de pesquisa para essa modalidade (os clubes, por exemplo, possuem pouquíssimo material sobre suas atletas).

Mas, para nós, o mais marcante no processo colaborativo foi a escolha do título da mostra: “Visibilidade para o futebol feminino” é uma das bandeiras dos profissionais que militam na modalidade, homens ou mulheres.

Compartilhar a curadoria, assim, passou a ser mais do que delegar algumas escolhas do acervo exibido às próprias mulheres: foi compartilhar com elas essa bandeira e agir em prol da causa. Pelo menos no nosso acervo, colaborarmos para a ampliação das fontes de pesquisa e tornamos essa trajetória mais visível a outros públicos, incluindo aí o engajamento nas mídias sociais.

Nos apropriamos da hashtag #visibilidadeparaofutebolfemino, que passou a ser usada em nossos posts sobre o tema no Instagram, Facebook e Twitter. E foi muito bacana ver essa hashtag ser difundida e utilizada por muitos coletivos e pessoas que se sensibilizaram com a causa. Pela primeira vez na história do Museu, ficamos nos trendtopics no Yahoo, no dia da abertura da exposição em 19 de maio.

3. Quantas pessoas da equipe do museu estiveram envolvidas?

A Diretoria de Conteúdo do Museu é composta por dois núcleos: o de Documentação, Pesquisa e Exposições (que engloba o Centro de Referência do Futebol Brasileiro) e o de Ação Educativa. Em todos os projetos de exposições, a equipe diretamente responsável pela concepção, pesquisa e produção das mostras temporárias é a do primeiro núcleo, formado por 7 profissionais e 2 estagiários, de diferentes áreas, como História, Artes Visuais, Ciências Sociais, Jornalismo e Biblioteconomia. Para esse projeto, contamos também com a colaboração de um grupo de educadores, não apenas na preparação da mostra, mas, após a abertura, no desenvolvimento de ações para o público (jogos, roteiros de visita) e, no momento, de uma exposição virtual (que vamos publicar na plataforma Google Cultural Institute em outubro). Os educadores do Museu também são graduados em diferentes áreas do conhecimento, como Educação Física, História, Artes, Arquitetura, Pedagogia e outros. Além disso, as exposições do Museu contam com o fundamental apoio dos profissionais da área de tecnologia (para as instalações multimídia) e de manutenção (para a montagem) e da área de comunicação, para a divulgação na imprensa, site e outros meios.

4. Quais as maiores dificuldades durante o processo de colaboração?

Não sei se é uma dificuldade, acredito mais em desafio para esse tipo de proposta: garantir uma representação digna a todos aqueles que colaboraram em uma exposição que, pela forma, necessita de recortes, sínteses e adequações estéticas que podem limitar a participação de todos. Nunca expomos tudo aquilo que pesquisamos. Os textos nascem enormes e temos de reduzi-los para torná-los atraentes ao público (fazer o público ler em exposições é também um desafio!). As fotografias devem estar nos padrões necessários para as ampliações e usos em diferentes mídias, além de conseguirmos os direitos autorais para exibição, os vídeos não podem ficar longos, sob o risco de ninguém assisti-los (talvez isso se coloque como um desafio por sermos apegados demais a certos padrões expositivos…rs).

Então, o processo colaborativo exige muito diálogo e negociação para fazer os colaboradores compreenderem que os recortes e as sínteses fazem parte do processo. Criam-se expectativas – “minha história vai para o Museu!” – temos de ser sensíveis a isso, mas, ao mesmo tempo conscientes de que temos limites, ainda que a proposta seja ser o mais plural possível, e saber expressar a eles esses limites. Além disso, não há homogeneidade dos discursos e nos valores, mesmo num circuito mais fechado de militantes na causa. De repente, a equipe da pesquisa e da produção se viu no meio de histórias cheias de intrigas pessoais de décadas atrás, disputas por pioneirismos… disputas legítimas e que são muito difíceis de traduzir em uma linguagem expositiva que é redutora e tem de ser sempre acessível a todos os públicos.

Uma de nossas estratégias, principalmente para contar várias histórias que não entraram na exposição, foi a criação de um site para o projeto: futebolfeminino.museudofutebol.org.br , no qual colocamos parte dos acervos digitalizados e uma pequena descrição dos personagens e histórias. O espaço virtual também será permanente no Museu, seja por meio desse site, seja por meio do banco de dados on line, ou pela exposição virtual que será lançada no início de outubro.

5. Como o Museu do Futebol avaliou os resultados e como pretende utilizar essa experiência colaborativa em exposições futuras?

Ficamos muito satisfeitos com o resultado, pois há uma causa por trás que liga o Museu à sociedade de maneira mais forte. Há pequenas coisas, espontâneas, que fizeram valer o trabalho, por exemplo, uma ex-jogadora escolhida para ser uma das homenageadas, a Tânia Maranhão, e que não pode estar presente na abertura, mudou a sua foto de perfil do Facebook colocando a foto de como ela está representada na exposição. E ela mantem essa foto até hoje, passados vários meses da abertura. Eu gosto muito desse tipo de reação do público, me emociona, pois conseguimos criar uma conexão com essa jogadora que ainda não nos visitou! Pensamos em como nossa ação mexeu com a sua história de vida e o poder transformador que isso pode ter para essa pessoa.

De modo geral, estamos em um momento em que as instituições consagradas do futebol mundial estão em crise, com dirigentes presos e processos questionados. Talvez nosso futebol careça de causas sociais mais amplas para se reconectar com seus públicos e essa seja uma das maneiras em que o Museu possa atuar junto com a sociedade. Nesse sentido, é válido apostar em novas experiências colaborativas em projetos de exposições.

6. Pensam em realizar exposições colaborativas (reais ou digitais) com outros museus, no Brasil ou no exterior?

Queremos muito! Existe há alguns anos em São Paulo a Rede Memória e Esporte, que une centros de memória, museus e outras instituições relacionadas ao tema na cidade, como os clubes. O grupo sempre almeja a proposição de algo em conjunto, quem sabe não conseguimos algo em 2016, nosso ano olímpico?

No exterior também existe um grande potencial de trabalho, principalmente nos países europeus, onde há museus sobre vários esportes, não só o futebol. A linguagem esportiva permite uma conexão global, seja pelos eventos mundiais, seja pelo fato de ter regras universais. É, literalmente, um mundo de possibilidades a explorar!

*******

Daniela Alfonsi, antropóloga, é diretora de conteúdo do Museu do Futebol e doutoranda em Antropologia pela USP, onde realiza pesquisa sobre os museus esportivos no Brasil.

*******

Galeria de fotos:

Anúncios