Museus de arte descobrem que há um custo em se tornar gratuitos

Uma reportagem publicada na Fortune no dia 1 de junho, de autoria da jornalista e editora americana Amy Langfield, discute um aspecto de um tema que vem inflamando a área museal brasileira nos últimos anos. Como de hábito, infelizmente, a maior parte dos que opinam a favor e contra a gratuidade dos museus defende posições inflexíveis, tanto de um lado quanto de outro. Quanto a mim, entendo as ponderações de ambos os lados. Não sou contra uma OS competente quando o estado está falido, é ineficiente ou precisa desesperadamente de ajuda; mas também não acho que a OS seja a nova panaceia nacional.

Voltando à reportagem, o fato é que ela é interessante e por isso resolvi resumi-la aqui no site, com a devida aprovação de Amy e com alguns comentários pelo meio. Se você quiser ler a versão completa, em inglês (que, inclusive, traz mais exemplos e números), vá em: Art Museums Find Going Free Comes with a Cost. A minha tradução comentada segue abaixo, do artigo que pode ser traduzido como “Museus de arte descobrem que há um custo em se tornar gratuitos“:

A abertura do The Broad, mais um museu gratuito em Los Angeles, reacende uma pergunta feita cada vez com mais frequência: por que todos os museus não são gratuitos?

Acontece que, no caso deste museu da costa oeste americana, ele foi quase todo bancado por algo que praticamente não conhecemos aqui no Brasil: a filantropia. Eli e Edythe Broad – sim, pessoas físicas – deram mais de US$ 200 milhões para o projeto.

O acesso à arte deveria ser gratuito, os museus deveriam democraticamente estar abertos a todos. Mas, como qualquer gestor sabe, há uma conta que precisa ser fechada. E uma das maneiras de ajudar a fechar essa conta é com a cobrança de ingresso.

O assunto está na pauta de discussão americana. Nos Estados Unidos, a maioria dos museus é pago – e o preço não é barato. O Art Institute of Chicago, por exemplo, tinha preço de entrada sugerido de US$ 12 (pagava quem queria); agora, o pagamento é obrigatório: US$ 23. Museus que passam de gratuitos para pagos enfrentam, é claro, grande resistência da comunidade.

Alguns museus americanos – como o Dallas Museum of Art – vêm adotando o modelo gratuito (com algumas exposições pagas, estratégia também empregada no Reino Unido). No caso do museu texano, isso significou um aumento de 498.000, para 668.000 visitantes em um ano e um crescimento de 29% na visitação de minorias. Por outro lado, o Bronx Museum of the Arts, em Nova York, se tornou gratuito quando recebeu um apoio financeiro grande o suficiente para mantê-lo funcionando por três anos. Seu público aumentou exponencialmente, mas o financiamento está acabando e, agora, o museu está se perguntando o que fará quando o dinheiro terminar.

Amy propõe duas questões importantes: a primeira é que a decisão de passar de pago a gratuito não tem retorno. Uma vez gratuito, dificilmente o museu poderá voltar a ser pago, caso “o cinto aperte”. A segunda é que o financiamento público está diminuindo (como se vê, tanto lá quanto aqui), enquanto cresce a frequência de público.

No Brasil, temos visto vários museus com tão pouca verba que não conseguem nem cumprir o papel básico de conservar apropriadamente os bens sob sua guarda. Várias iniciativas públicas e privadas têm sido obrigadas a fechar as portas: o caso do Museu Nacional, fechado por alguns dias no início de 2015 porque não tinha verba para pagar faxineiros e segurança, e o recente anúncio de fechamento da Casa Daros, são apenas dois exemplos.

Resta a nós estudar muito, debater muito, ouvir exemplos, trocar experiências e lutar por uma administração cada vez mais competente, seja nas esferas públicas ou privadas. E trabalhar, também, para que tenhamos equipes cada vez mais preparadas e comprometidas com metas e resultados. Do diretor ao técnico, do estagiário ao servente.

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