Entrevista com Joel Santana sobre o Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul

Joel Santana

Entrevista com Joel Santana, coordenador do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul entre 2012 e 2014 (saiba mais sobre Joel Santana ao final desta página).

Joel vem fazendo há vários anos um importantíssimo trabalho no Sul do país. O objetivo desta entrevista é aumentar a visibilidade desse trabalho nas outras regiões do Brasil. Costumamos saber muito do que ocorre no eixo Rio-São Paulo e em nossa própria área de trabalho, em detrimento de iniciativas tão ou mais relevantes que ocorrem em outros estados brasileiros.

Quantos museus há no Rio Grande do Sul, no estado como um todo e na capital? Sobressai-se alguma tipologia em particular?

Conforme nossa última edição do Guia Estadual de Museus, em maio de 2013, o estado tem em torno de 341 museus cadastrados (mas, obviamente, este número já foi superado, hoje gira em torno de 400). A publicação baseada nesses dados do Guia de Museus, intitulada “Breve Estudo dos Museus do RS“, aponta que a tipologia predominante no estado (cerca de 70%) é a histórica, de caráter pública municipal.

A Secretaria de Cultura incentiva parcerias com outros museus e universidades, nacionais e estrangeiros? Em caso afirmativo, poderia nos dar um exemplo?

Sim, a Secretaria articulou junto ao British Council, o intercâmbio cultural na área de museus, primeiramente na gestão de políticas públicas com a participação do diretor do SEM/RS e depois na gestão das instituições com a participação dos diretores da Casa de Cultura Mário Quintana – CCMQ e do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MAC/RS aprofundando seus conhecimentos. Também ocorre a Bienal do Mercosul, que tem participação ativa dos museus estaduais, conjuntamente com artistas gaúchos e demais instituições. Também temos a Semana do RS/Uruguai, que consiste em uma semana de cultura gaúcha no Uruguai e dos uruguaios no RS, em todas as áreas culturais, inclusive com a exposição e recepção de obras de artistas gaúchos em museus e galerias  tanto no RS, quanto no Uruguai, precedidos de encontros preparatórios. Houve ações culturais semelhantes nos Açores/Portugal, Havana/Cuba e outros. Realizamos, também, o Seminário da REM/RS, que contou com o apoio do SEM/RS e permitiu trazer profissionais de outros locais do país para o debate sobre educação museal, tal como aconteceu no 13° Fórum Estadual de Museus do RS. Enfim, o SEM/RS sempre buscou atuar em rede e fortalecer o setor.

Quais as principais ações da SEC para o fortalecimento dos museus no Estado?

Bom, nesta gestão focamos nossa atuação em três pilares que acreditamos ser fundamentais para ampliar a atuação do SEM/RS: a Gestão, a Formação/Comunicação e o Fomento. Que passo a destacar:

Gestão:

  • Mudança de sede para o Centro Administrativo do Estado
  • Coordenação de projetos dos museus via SICONV
  • Constituição de um Colegiado Setorial de Museus
  • Inicio do processo de Construção do Plano Estadual Setorial de Museus
  • Intercâmbio Cultural com British Council
  • Apoio a formação de projetos estratégicos de formação de museus
  • 3° Edição do Guia Estadual de Museus do RS

Formação/Comunicação:

  • Realização e apoios a cursos, oficinas, encontros e visitas técnicas
  • Conexões Ibram/RS
  • 13° Fórum Estadual de Museus
  • Encontros Regionais de Museus
  • Criação de informativos e inserção nas redes sociais
  • Implantação do Mapa Digital da Cultura
  • Publicação: Breve Estudo: Museus RS

Fomento:

  • Criação dos editais do Fundo de Apoio a Cultura dos Museus (2012/2013 e 2013-2014)
  • Participação da elaboração do projeto dos museus estaduais no PAC das Cidades Históricas – contemplado com 25 milhões
  • Projeto de captação – via SICONV – do Sistema Nacional de Cultura para o Museu Arqueológico do RS – 4 milhões
  • Articulação em outros editais transversais do sistema Pró-Cultura/RS para os museus.

Estas foram nossas principais ações à frente da instituição, um trabalho realizado a muitas mãos, como a equipe do SEM/RS, os Coordenadores Regionais, o Colegiado Setorial de Museus, os cursos de museologia da UFRGS e UFPEL, COREM, GT acervos ANPUH, estudantes e tantos outros.

Vê as redes sociais e a internet como ferramentas importantes para os museus? O RS tem algum caso de sucesso nessa área?

No RS, praticamente todas as instituições vinculadas à Secretaria de Estado possuem seus sites e interagem nas diversas redes sociais. A internet é a grande porta para comunicação nos dias atuais e os museus precisam cada vez mais utilizar esta ferramenta para divulgação, criação e compartilhamento de conteudos e estudos de interesses e temas vigentes na sociedade. Como projeto, existe o Mapa Digital da Cultura do RS – que mapeia e identifica todos os equipamentos culturais, permitindo que as sejam identificadas suas informações e a criação de roteiros específicos.

Um projeto do Museu das Coisas Banais da UFPEL é outro indicativo de um projeto de museu virtual que interage diretamente na internet e propicia contar histórias de pessoas e seus objetos a partir de suas singularidades afetivas.

Como a SEC-RS vê a questão da fotografia em museus, em geral, e os selfies, em particular?

O Rio Grande do Sul tem um projeto de criação de um centro especializado em fotografia, tanto para  os fotógrafos exporem, quanto para estudo e conservação, capitaneado pela ex-1° Dama, que também é fotógrafa. Com participação do SEM/RS, foram conquistados recursos junto à bancada federal gaúcha e a investidores nas leis de incentivo para a reforma do Centro Cultura Palacinho – Fototeca do RS. A licitação e contratação de serviços deve ser a próxima etapa.

Na questão dos autos-retratos nas exposições, ou mesmo fotografá-las, é preciso que na elaboração da exposição seja pensado que essa é uma questão em voga com a difusão de smartphones e tudo mais. Se as obras são públicas, num museu público, acho que o acesso a elas pode ser liberado, desde que sejam avaliadas as questões de conservação, por primeiro. Já, se a obra é privada, seja onde ela estiver exposta, cabe à curadoria prever essa situação e consultar o dono sobre esta possibilidade de liberação ou não do uso da imagem, prevalecendo sempre as normas de conservação. Acredito que esta questão é muito mais uma questão de diálogo e convencimento, do que se quer com a exposição, seus objetivos e alcance. O museu precisa ser um canal de conhecimento. Mesmo que uma obra não esteja acessível plenamente, como no caso do uso dos auto-retratos, ela não está impossibilitada de ser acessada e por isso de ser descrita, visualizada, entendida e decifrada. Ou seja, o museu continua a ter o seu papel de integração com o público.

Com relação à sustentabilidade das instituições, acredita no modelo das OS (Organizações Sociais), que vem sendo experimentado em algumas cidades brasileiras? Que outros caminhos indicaria?

Eu parto da premissa que o “Direito a Memória” é um direito garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, e por isso o Estado, enquanto poder público, deve garantir às instituições as condições adequadas de guarda, acesso e fruição deste direito. Portanto, entendo que propor OS para museus vinculados ao poder público é uma forma de praticamente “privatizar” esse direito do cidadão, embora, na verdade, ele esteja sendo terceirizado.

Acredito que esta é uma responsabilidade do Estado e não deve ser transferida a qualquer outro interessado, embora eu reconheça que com as OS haja menos burocracia para contratação de serviços específícos e que há efetivamente uma carência do Estado em tê-los. Mas se o Estado tem o dever de prestar bons serviços públicos, deve perseguir isso em todas as áreas e garantir a efetivação de um quadro de profissionais que atenda às demandas. O principal ponto é mudar as leis de licitações para adaptar as organizações civis e culturais, ou seja, a OS é um forma de driblar essa necessidade que faria o Estado funcionar de maneira mais adequada a sua necessidade e realidade.

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Joel Santana é Mestrando de História/FURG. Foi diretor do Museu Julio de Castilhos (2011), assessor de Memória e Patrimônio da Prefeitura Municipal de São Lourenço do Sul (2009-2010), diretor do Museu Histórico de São Lourenço do Sul (2008-2010) e membro fundador da Rede de Educador da Rede de Educadores em Museus do RS (2010-2014).

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