SOS Dinossauros: uma campanha pela Paleontologia brasileira (e a sua relação com os museus)

Alexander KellnerInaugurei a página de entrevistas do meu site em 2015 conversando com o geólogo, paleontólogo, curador e professor universitário Alexander Kellner, porta-voz e um dos articuladores da campanha SOS Dinossauros, que causou frisson recentemente ao afirmar que a Paleontologia brasileira está em “perigo de extinção”. Kellner é um dos maiores especialistas em répteis fósseis do mundo, recentemente eleito para a World Academy of Science, Engineering and Technology.

Meu objetivo com essa conversa foi falar da campanha e, ao mesmo tempo, explorar as oportunidades de uma colaboração bem mais intensa entre os museus brasileiros e ciências como a Paleontologia. [Coincidentemente, dias depois da entrevista, o Museu Nacional lançou um comunicado avisando que fecharia suas portas ao público, “por tempo indeterminado”, em função de problemas de verba. Clique aqui para ler a nota aberta sobre o Nota publica sobre o fechamento do Museu Nacional.]

Por que a campanha “SOS Dinossauros”?

Já há algum tempo, a Paleontologia tem experimentado um certo crescimento no nosso país. Eu gosto de brincar e dizer que a imprensa “descobriu” os paleontólogos brasileiros e, ao fazer isso, permitiu que mostrássemos o nosso trabalho. Esse despertar do interesse por parte da sociedade fez com que houvesse um aumento substancial de concursos públicos, que permitiram que novos paleontólogos iniciassem os seus trabalhos. A maioria dos paleontólogos fica concentrada na paleozoologia, que é o estudo dos animais fósseis. E um bom número de pesquisas foram financiadas nessa área, particularmente, pelas fundações de amparo à pesquisa a nível regional – por exemplo, a Faperj, a Fapesp, as fundações de amparo à pesquisa do Recife, de Minas Gerais e por aí vai.

Mas o grande financiador da pesquisa brasileira, a nível nacional, é o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologia (CNPq). E num certo momento, por motivos diversos, o CNPq reorganizou os projetos para bolsas de pesquisa, redirecionando os de paleozoologia para seu Comitê de Zoologia.

Não estamos questionando a reorganização feita pelo CNPq, que é até positiva. Mas o fato é que os nossos pesquisadores não estão conseguindo obter financiamento para suas pesquisas. E por que isso está ocorrendo? Porque, no Comitê de Zoologia, as pessoas [que analisam os projetos] não têm conhecimento de paleozoologia. A falta de especialistas na análise dos projetos está transformando toda essa nova geração de paleontólogos numa geração órfã, sem recursos suficientes para desenvolver suas pesquisas. Este não é um problema emergencial, mas é um problema que, a médio prazo, vai resultar numa diminuição do desenvolvimento da Paleontologia no nosso país. É por isso que estamos gritando agora, por isso esta campanha. Com ela, estamos procurando alertar as autoridades, e especificamente o CNPq, sobre a situação.

Quando a campanha foi lançada e o que ela reivindica?

O movimento reivindicatório começou no início no ano passado, quando fizemos o primeiro abaixo-assinado, que contou com o apoio de mais de 150 paleontólogos e que foi enviado para a presidência do CNPq e para os diversos departamentos ligados ao assunto. Mas só agora a campanha foi divulgada ao público em geral.

O que pedimos nesse abaixo-assinado foi apenas uma coisa: representatividade. Queremos que haja um paleontólogo na comissão de avaliação sempre que projetos desse edital universal, na área de paleozoologia, forem ser avaliados. Desse modo, esse paleontólogo poderá informar ao restante da comissão sobre a relevância dos projetos, apresentar dados, esclarecer dúvidas e assim por diante.

Infelizmente, não fomos atendidos: a resposta do CNPq foi de que “não havia demanda”. Esse enfoque mostra uma certa “miopia” do órgão, que não enxerga uma área que está em crescimento no país. Se os novos paleontólogos não são contemplados nos editais, a área morre. Porque, se você não tem dinheiro, não consegue atrair aluno; e se não consegue atrair aluno, a área morre. E isso é uma coisa muito triste.

Entendemos que a Zoologia é uma área imensa, mas a Paleozoologia tem especificidades e complexidades muito difíceis de serem compreendidas por um zoólogo. Por exemplo, quando vamos a campo, é muito difícil encontrarmos alguma coisa. E quando encontramos, nem sempre é aquilo que estávamos procurando. Raramente isso acontece com um zoólogo: quando ele vai a campo, já sabe onde vai achar o material. E, geralmente, o zoólogo já tem muito material no seu laboratório, o que às vezes gera uma situação de não entendimento do que faz a Paleontologia. Me lembro de uma conversa com um colega zoólogo em que eu dizia “estou aqui trabalhando com um exemplar” e ele respondeu: “mas Alex, um exemplar não dá para nada!” Não dá para nada na Zoologia, mas na Paleozoologia é assim mesmo – muitas vezes, trabalhamos até com meio exemplar, porque temos que lidar com a raridade do material.

A China, país com que venho trabalhando desde 1999, tem investido expressivamente nas pesquisas paleozoológicas. Precisamos investir também aqui no Brasil.

O correto, com relação aos editais, seria criar uma área de Paleontologia, que envolvesse a paleobotânica, a paleozoologia, os microfósseis. Desse modo, seríamos julgados pelos nossos pares, por pessoas que entendem do assunto. Seria necessário também maior transparência, por exemplo: qual a pontuação obtida para as Bolsas de Produtividade em Pesquisa? Atualmente, essa pontuação não é divulgada.

Há áreas no Brasil em que se tem certeza de que há fósseis, mas que ainda não puderam ser estudadas por falta de investimento público?

Muitas! Não são uma, nem duas: são muitas. O Brasil tem também uma particularidade, que é a presença de vegetação recobrindo quase todo o nosso território. Isso é muito bom, mas não para o paleontólogo, pois o solo ideal para nós é o desértico. Por isso, na Argentina e na Mongólia, acham-se muitos fósseis. Aqui, para minimizar esse problema, é preciso fazer expedições exploratórias, por exemplo, à beira dos rios. Mas há muita coisa no Brasil: no Mato Grosso, na Bahia – você verá, ainda vai se encontrar muitas novas descobertas na Bahia, pode apostar. O que é preciso e ter verbas para realizar as pesquisas.

Como se obtém diploma em Paleontologia no Brasil?

Não há cursos de graduação em Paleontologia no Brasil (alguns países os têm: os EUA, a Argentina, a China, por exemplo). Aqui, os caminhos são a pós-graduação – o mestrado, o doutorado, o pós-doutorado.

No meu tempo, o caminho para a Paleontologia era via Geociências (eu sou geólogo). Hoje, isso mudou: a maior parte dos paleontólogos vem das Ciências Biológicas. Acho inclusive que isso está correto: faz mais sentido, para o tipo de Paleontologia que eu faço, que ela esteja dentro da Biologia (se alguém deseja estudar Geologia do Petróleo, deve fazer Geologia e, depois, um mestrado ou doutorado com enfoque em Paleontologia, para estudar particularmente microfósseis; se a pessoa quer estudar Paleontologia para se envolver com temas como anatomia comparada, estudar a relações de parentesco dos vertebrados etc., então deve fazer Biologia).

Neste aspecto, a mudança efetuada pelo CNPq é correta: os editais com foco na paleozoologia devem mesmo ser analisados dentro da Zoologia. O que não está correto é não destinar recursos financeiros para apoiar as pesquisas dos novos profissionais, que são muito promissores. Isto está errado.

Os achados paleontológicos brasileiros estão digitalizados e disponíveis para consulta de estudiosos e do público em geral?

Querida, nós ainda estamos tentando encontrar fósseis e você já quer que digitalizemos os achados? (risos) É claro que deveriam estar! Eu tenho acesso às coleções de museus americanos, alemães, do Canadá e outros. Isso facilita muito a nossa pesquisa. Mas nós ainda estamos muito atrás nesse quesito. A Paleontologia no Brasil ainda luta por outras questões mais básicas, falta um longo caminho até chegarmos a esse ponto.

Aí entra também uma outra questão, que é a realidade dos museus brasileiros, que você conhece melhor do que eu. Eu trabalho no maior museu de História Natural do Brasil, o Museu Nacional, que mesmo assim ainda está muito aquém de museus da América do Norte, da Europa e mesmo da Ásia. A China, a Coreia do Sul, o Japão, por exemplo, têm museus de História Natural que nós aqui ainda nem sonhamos em ter. E por que, isso? Não é que o Brasil não tenha condições. Isso, nós temos; nosso problema é falta de investimento.

Há pouco tempo li um artigo que dizia que os museus universitários deveriam trabalhar na divulgação da produção intelectual da universidade, mas que isso nem sempre acontece. Como anda a relação entre os museus de História Natural no Brasil e a comunicação da produção científica? Algum bom exemplo brasileiro?

Eu sou, talvez, um pouco suspeito para responder, até porque milito no Museu Nacional (MN), que pertence à UFRJ. Lá, nós fazemos, pelo menos, uma grande coletiva por ano (bem como outras coletivas menores), em que apresentamos os achados, os resultados científicos [da nossa pesquisa], e os transformamos numa exposição, mesmo que de pequeno porte, para que esse conhecimento seja transmitido à sociedade. Esta é uma receita muito simples, que começamos a empregar em 1999, com a exposição “O Brasil no tempo dos dinossauros”.

É assim que fazemos no Museu Nacional: o achado é apresentado numa coletiva e passa a integrar uma exposição. É um modo de “devolver” o investimento que foi realizado pelo povo que, em última análise, é quem paga essas pesquisas por meio dos impostos. É também um modo de trazer a Paleontologia mais para perto do público, desmistificando esse “mito” do “cientista louco”, humanizando a figura do pesquisador.

Mas isso não é feito em grande escala no Brasil. Alguns outros museus universitários estão começando a fazer coletivas: Recife, Rio Grande do Sul e alguns outros. Mas mesmo dar esse pequeno passo é difícil aqui, pois a maior parte dos museus universitários de História Natural / Paleontologia não tem nem possibilidade de receber público. Às vezes, o museu é apenas uma pequena sala.

Há um grande potencial a ser trabalhado mas, novamente, esbarra-se na questão da verba.

Outra coisa que não se vê muito aqui são museus com espaço para receber exposições de fora – seja de outros estados brasileiros, seja do exterior. Grandes exposições itinerantes de História Natural deixam de ser montadas no país por falta de espaço.

É verdade. No ano passado, eu participei da curadoria de uma exposição sobre répteis alados no Museu de História Natural de Nova York. 30% da pesquisa para essa exposição era brasileira. Nós estamos tentando trazer essa exposição para o Brasil, mas ainda não conseguimos.

É muito importante trazer essas exposições temporárias, mostrando ao público o nosso acervo e outros acervos [vindos de fora]. Sempre que se faz isso, o resultado é muito bom. Por exemplo, a mostra “Dinos na Oca”, em São Paulo [2006], recebeu 500 mil pessoas antes de completados os dois meses de exposição. Foi um grande sucesso!

O museu é, muitas vezes, o primeiro contato de uma pessoa leiga com a Paleontologia. Museus podem ser grandes aliados das Ciências da Terra, promovendo uma eficaz aproximação com o público – informativa, abrangente, imaginativa e afetiva. Exposições temporárias empolgantes, que façam uso de várias mídias, e um trabalho de educação museal competente podem, inclusive, induzir ao nascimento de novos cientistas.

E não é só isso, é muito mais do que isso. Porque, quando você traz essas crianças para dentro do museu, elas vão ver os dinossauros, mas depois irão ver uma infinidade de outras coisas interessantes da Geologia, da Zoologia, da Botânica. Questões sobre ambiente, extinções, aquecimento global e por aí vai. Elas vão compreender melhor o mundo que as cerca. E se elas não se tornarem pesquisadoras – o que provavelmente será o caso, pois só uma pequena parcela delas irá dedicar-se às Ciências – elas serão, pelo menos, muito mais sensíveis às questões científicas.

Essa “receita de bolo” é empregada habitualmente na Europa, nos Estados Unidos. É o museu agindo como sensibilizador do futuro adulto, aquela pessoa que, dali a alguns anos, estará tomando decisões nas empresas e nas instituições.

Que museus do exterior você acha que melhor cumprem essas funções?

Há vários museus espetaculares de História Natural no exterior. Desde os óbvios, como British Museum, em Londres, e o American Museum of Natural History, em Nova Iorque, até vários outros excelentes, como o Museum für Naturkunde, em Berlim; o Senckenberg, em Frankfurt; o National Museum of Nature and Science de Tokyo; e o Beijing Museum of Natural History. E até o North Carolina Museum of Natural Sciences. A Carolina do Norte não é um dos estado de grande expressão nos Estados Unidos. Mesmo assim, o museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte dá de dez a zero em qualquer museu brasileiro. Posso falar da China também, que tem vários museus ótimos. Infelizmente, sobre esse possivelmente não se encontrará nada via web.

De que modo a comunidade de profissionais de museus – no Brasil e no exterior – poderia ajudar a campanha SOS Dinossauros?

O ponto principal seria se solidarizar, participar desse novo abaixo-assinado que vamos preparar e enviar ao CNPq. E ajudar a divulgar a campanha. Será muito bom se pudermos contar com o apoio dessa comunidade.

decorative-line-Download-Royalty-free-Vector-File-EPS-2302

Mais sobre Alexander Kellner (veja também: Academia Brasileira de Ciências)
Nascido em Liechtenstein e naturalizado brasileiro, o prof. Alexander W. A. Kellner é geólogo e paleontólogo. Iniciou sua atividade científica em 1981, enquanto ainda estudante de graduação do curso de Geologia da UFRJ, dedicando-se ao estudo de vertebrados fósseis. Em 1991, concluiu o curso de mestrado na UFRJ e em 1996 o curso de doutorado (Ph.D.) na Columbia University (Nova Iorque), em programa conjunto com o American Museum of Natural History (AMNH). Ingressou no Museu Nacional (UFRJ) em 1997, onde se dedica à pesquisa de vertebrados fósseis, particularmente aos encontrados em depósitos cretáceos. As suas linhas de pesquisa envolvem principalmente répteis fósseis, tais como pterossauros, dinossauros e crocodilomorfos. Entre as suas descobertas principais está o dinossauro carnívoro Santanaraptor, com o tecido mole mais bem preservado de que se tem notícia, incluindo fibras musculares e parte do sistema capilar fossilizado, além do réptil voador Thalassodromeus sethi, que permitiu o estabelecimento de novas hipóteses a respeito de aspectos fisiológicos dos pterossauros. Também participou da descoberta e descrição de dezessete novas espécies de vertebrados fósseis, tendo publicado mais de 70 estudos inéditos em periódicos nacionais e internacionais. Professor do programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional/UFRJ, orienta diversos alunos a nível de iniciação científica, mestrado e doutorado. Organizou diversas expedições em distintas partes do mundo como o deserto do Atacama, no Chile, Montana, nos Estados Unidos, Patagônia, na Argentina e a região de Kerman, no Irã. Participou na organização de inúmeros eventos científicos, destacando-se o primeiro simpósio sobre pterossauros, realizado no American Museum of Natural History (Nova Iorque) e o 31th International Geological Congress, realizado no Brasil, em 2000. Também realizou atividades voltadas para a divulgação científica, tais como exposições, destacando-se a mostra “No tempo dos dinossauros”, inicialmente inaugurada no Museu Nacional/UFRJ (1999) e atualmente exposta no Museu de Ciências da Terra (DNPM/RJ). As atividades de pesquisa de Alexander Kellner fazem com que seja continuamente procurado pelos meios de comunicação, tendo sido publicados pela imprensa escrita, apenas nos últimos cinco anos, mais de 100 artigos sobre seus trabalhos, contribuindo para a divulgação do conhecimento paleontológico para o público leigo. Kellner é Honorary Member of the New York Paleontological Society, Membro Honorario de la Sociedad Paleontológica de Chile (Santiago) e Pesquisador Associado da Divisão de Paleontologia do American Museum of Natural History (Nova Iorque).

Veja também a entrevista de Kellner ao jornal O Globo, publicada em 02/01/2015.

Anúncios