O pé que traduziu Mia Couto

mia-coutoDesde 2013, volta e meia eu comentava com alguém sobre a delícia que fora ouvir a palestra do biólogo e escritor moçambicano Mia Couto na 23ª Conferência Geral do Conselho Internacional de Museus (ICOM), em 17 de agosto daquele ano. A frase seguinte era sempre: “que pena que a transcrição dela não está disponível online”.

Pois outro dia dei com o vídeo da palestra no Fórum Permanente (aqui) e resolvi – porque estava de férias, de pé quebrado e à cata do que fazer – transcrever o texto aqui no site.

Há que se escusar (parcialmente, pelo menos) o mau humor inicial de Mia, pois a palestra dele começou bem atrasada e o auditório, que estivera muito cheio ao início da manhã, estava àquela hora bem vazio. Lá vai:

Vou ler – ou vou tentar não ler – um texto que eu preparei para esta conferência, “Os templos do tempo”, com ponto de interrogação: não se trata de uma afirmação, é uma pergunta.

Sou um escritor, sou um simples visitador de museus. Não tenho autoridade em qualquer matéria relativa a esta conferência. Mas quando visito um museu, faço-o sempre em duas etapas. Num primeiro momento, escolho caminhar, dispensando a interposição de qualquer guia ou cicerone. Quero escutar as coisas sem tradução, quero manter a ingenuidade no olhar, quero despir-me de todo o saber. Só assim desfruto a dimensão pessoal e íntima desse encontro. Só assim me converto de um visitante para um viajante.

Esta conferência decorre sobre um lema de Memória e Criatividade. Quase sempre concebemos esses dois termos como se eles fossem uma dualidade conflituosa mas, na verdade, trata-se de um falso conflito. Não há, em rigor, fronteira entre recordar e inventar. O passado e o futuro são duas margens de uma mesma miragem.

A ciência fez prova de algo que é muito curioso: quem sofre de amnésia não é apenas incapaz de se lembrar o que se passou, mas não consegue construir, imaginar, aquilo que se vai passar. Quem esquece o passado, esquece o futuro.

Neste depoimento falamos do tempo, pensando que o tempo é, afinal, o tema principal de todos os museus. Não importa a arquitetura do edifício, não importa o acervo ou a coleção. A verdadeira matéria do museu é sempre a narrativa do tempo. O arqueólogo Leonard Woolley fazia escavações em 1925 na Babilônia, na cidade de Ur, quando descobriu que esse edifício guardava uma enorme coleção de objetos. Esses objetos estavam arrumados, estavam classificados e catalogados numa escala temporal. Foi essa relação com o tempo que permitiu concluir que se estava perante a um museu. Esse lugar nasceu há 2.500 anos e desde então os museus são olhados como templos do tempo. É assim que parecem ser: locais de culto, onde se venera um tempo divinizado.

A pessoa responsável por esse primeiro museu do mundo era uma mulher. Essa curadora chamava-se Ennigaldi, era uma princesa, filha do último rei da Babilônia. Curiosamente, Ennigaldi era também a principal sacerdotiza do deus Nanna, que era uma divindade da Lua. Essa primeira curadora tratava dos ciclos temporais dos céus e da Terra. A princesa ocupava-se do tempo a tempo inteiro.

Caros amigos, o percurso da minha vida foi o de uma criatura de múltiplas fronteiras. Sou africano, sou filho de europeus, sou um escritor numa nação que vive na oralidade, sou um poeta que trabalha como cientista, sou um ateu numa sociedade profundamente religiosa. Nasci num tempo de charneira, entre uma pátria que nunca houve e uma nação que ainda está nascendo. Esta nação nascente é uma simbiose de culturas, línguas diversas e variados modos de sentir o mundo.

O tempo é a primeira linha divisória que separa os moçambicanos. Para alguns, o tempo é um rio, um caminho entre a nascente e a foz. Para outros, o tempo imita o viver da chuva, não nasce nem morre. A chuva é apenas um modo da água acontecer sem moradia, sem comando, sem dono.

Para quem o tempo é a chuva, a construção da memória é uma navegação, uma errática viagem propiciada pelos deuses. Para quem o tempo é um rio, a viagem precisa de um veículo mais seguro. A arquitetura da memória imita, nesses casos, a configuração de um museu: os eventos da nossa vida estão ordenados como artefatos ao longo de salas e corredores. Mesmo que falsa, essa ideia de arrumação ajuda a aplacar o nosso medo que o mundo seja caótico e sem regra. Assim, penteado e engomado, o tempo passa a ser legível. Com essa artificiosa garantia da ordem, somos herdeiros do ontem e donos do sempre.

Nasci numa pequena cidade no litoral de Moçambique e a minha cidade nunca teve nada que se parecese mesmo vagamente com um museu. No bairro da minha infância vivia uma portuguesa viúva e idosa que fazia serviços de costura. Ela emigrara de Portugal para Moçambique para estar mais perto do filho, que cumpria o serviço militar no Exército colonial. O seu filho estava matando ou morrendo algures numa mata, no interior de Moçambique. A tristeza da viúva era digna de compaixão e assim a minha mãe se voluntariou várias vezes para apoiar a vizinha. Lembro-me da casa dessa costureira como um refúgio, um refúgio que ela construíra para se proteger dos clamores de uma guerra que, para nós, era uma guerra de libertação nacional e que, para ela, era o desabar de seu único mundo. Eu fui obrigado a acompanhar a minha mãe e todas as vezes observava esse ambiente sombrio da casa. Envolta num xale negro, a vizinha arrastava os pés sobre o assoalho de madeira, como se a viuvez fosse nela uma doença congênita. Os seus passos eram o relógio da minha impaciência, enquanto – contrariado -, eu espreitava as outras crianças brincando na rua. E cobrindo a parede de fundo da sala, havia um armário imenso com milhares de gavetas de todos os tamanhos. Enquanto falava, a viúva abria e fechava as gavetas como se receasse que alguém tivesse invadido seu domínio privado. Uma imensa curiosidade foi nascendo em mim: o que tanto se escondia naquele velho armário? E congeminei maneiras de assaltar os segredos da costureira, mas faltou-me coragem e faltou-me ocasião.

As duas senhoras, minha mãe e essa portuguesa trançavam conversa sobre conversa sem pausa, sem ausência, e de vez em quando a viúva suspirava: “onde estará o meu menino?” E eu voltava a adiar a minha infância. Encolhido num canto, a casa surgia como se fosse uma igreja, a luz era filtrada, falava-se baixo e a portuguesa olhava o teto como se estivesse vendo o céu.

Certa tarde, a vizinha, em prantos, bateu à nossa porta. O carteiro chegara da frente de combate e não trouxera a habitual mensagem do seu filho. A viúva receava o pior. Uma vez mais a minha mãe a levou em missão de consolo. Em casa da vizinha bebeu-se chá. Trocaram-se lágrimas, suspiros e segredos. E a viúva, como sempre, passeou os dedos pelas gavetas do armário. Só que desta vez, num desesperar, de repente, ela escancarou as gavetas e despejou o seu conteúdo sobre o tampo da mesa. E ali se exibiram perante a minha ávida curiosidade centenas de pequenos objetos, todos eles díspares, órfãos, inúteis. Eram botões velhos, … desbotadas, fotos desbotadas, pedaços de brinquedos, restos de novelos de linha. No dizer de Manoel de Barros, aquilo seria dizer um “armazém de inutensílios”. “Para que servem todas essas coisas?”, perguntou, timidamente, a minha mãe. A costureira enfrentou-a, surpreendida, como se a pergunta não fizesse sentido. “Para que servem estas coisas?” – repetiu ela. “Ora, servem para ser guardadas!”. Só muito mais tarde entendi. Não era a viúva que guardava os objetos. Era o inverso: os objetos é que a guardavam a ela. Todos aqueles materiais eram, ao final, criaturas vivas, cheias de vozes de antigos parentes que lhe faziam companhia. A casa da velha costureira terá sido o primeiro museu que visitei. Aquele lugar era um museu no sentido original do termo: mouseion, o templo das musas, um abrigo para as divindades protetoras. A morada dessa portuguesa era um templo de um tempo vivo. Porque a vida, nela, era de uma única espera, uma única reza. Aquele lugar, para mim, tornou-se um museu, aonde a casa se acendeu e se tornou viva. Tornou-se um museu quando nela se guardou o eterno, o espanto da infância. Foi esse espanto que eu guardei a vida inteira.

Vamos a um museu não exatamente para ver os artefatos mas para nos vermos a nós próprios como inventores do tempo. Esses artefatos que nos deixam, que nos são exteriores, concedem-nos inferioridade, essas coisas públicas fabricam a nossa intimidade. Esses corpos atemporais fabricam o nosso tempo tempo individual e coletivo.

Toda a minha infância foi um percurso compartilhado com coisas, que me deram alma, e com bichos, que me humanizaram. Vivo num lugar onde a miséria fez da morte uma coisa frequente. Talvez por isso, essa nação seja feita de gente tão viva que mesmo os cemitérios são lugares mais para os vivos passearem do que para os ausentes morarem. Os mortos são semeados – é assim que se diz lá, não se diz sepultados. Os mortos são semeados por baixo das sombras das árvores sagradas. Assim, fui aprendendo a esperar que alguma qualquer gaveta do mundo surgisse como um encantamento vital. E foi uma poeta, Sophia de Mello Breyner, que me ajudou a entender esse modo de sentir o tempo. Ela escreveu os seguintes versos:”Se tanto me doi que as coisas passem, É porque em mim foi vivo cada instante”.

Na minha família, disputávamos com a costureira esse guardar de passados. Só não o fazíamos em gavetas de armários, o fazíamos em relatos e histórias. Em nossa casa, não tínhamos crença religiosa, mas fazíamos o culto da refeição como um tempo sagrado. Em redor da mesa, não rezávamos, mesmo que o quiséssemos não saberíamos fazer. O nosso modo de rezar era contar histórias, a história era a nossa oração. Os meus pais fizeram isso conosco, eu fiz isso com meus filhos. Essa história, esse novelo de histórias, constituiu uma espécie de galeria viva em que se cruzam memória e invenção.

Minha pequena cidade não tinha museu, mas nós não precisávamos sair à rua para ir ao museu. Quando ainda eram crianças, os meus filhos requeriam uma dose infinita de histórias. Eu contáva-lhes episódios da minha juventude, e naquela altura eles ainda gostavam, ainda aturavam. A minha filha mais nova, porém, sentia-se triste porque lhe faltava, na sua própria adolescência, o sentido épico que marcou a minha juventude. Uma vez, ela me interrompeu e perguntou: “Pai, no teu tempo o mundo era melhor?” Eu respondi que não, que o mundo não era melhor. Mas também acrescentei o seguinte: disse que, antigamente, o futuro era muito melhor. Na altura, eu disse isso com convicção, mas hoje não sei se é verdade. Não se comparam futuros, não é possível comparar incertezas.

Talvez o meu velho pai estivesse mais certo da superioridade do futuro no seu tempo, era essa a certeza que o animava quando ele me interpelava e dizia: “estuda, para seres alguém”. Era isso que o meu pai me dizia. Quando eu era menino, era isso que ele falava, meu pai, e quando falava assim, meu pai não falava apenas comigo, ele falava com o futuro. Vivíamos numa condição difícil sob um regime de uma ditadura colonial, mas havia para o meu pai um futuro que escutava, um futuro que falava a nossa língua. O futuro éra mais do que uma feira, era uma aposta clandestina. Num tempo de portas fechadas, o meu pai espreitava o futuro pelo buraco da fechadura. O futuro mudou? Ou fomos nós que passamos a entender melhor a complexidade do mundo?

Falei de tudo isto porque cada um de nós vive hoje, na sua vida privada, um choque frontal de temporalidades. Falamos da globalização como algo que se traduzisse apenas em termos espaciais, nessa metáfora da aldeia global. Mas é, sobretudo, no domínio do tempo, que estamos vivendo mudanças radicais. No espaço de uma geração, fomos todos deslocados, somos todos imigrantes de uma outra temporalidade, e somos todos recém-chegados a essa espécie de pátria suspensa, em que todos somos todos e não somos nunca ninguém. Precisamos aprender a lidar com esta outra cidadania, cuja regra principal parece ser negar a ideia da cidadania. Somos todos súditos do reino da absoluta realidade, onde tudo vive no tempo real, tudo é imediato e simultâneo, tudo é veloz e voraz.

(Eu faço aqui uma pausa, porque estou a pensar nos tradutores. Será que eu preciso dizer alguma coisa mais lento? Façam um sinal. Está bom?)

O império do instantâneo destronou o ontem, como algo condenado à nascença a ser obsoleto e descartável. O mercado impôs-nos um outro tempo, um tempo de consumo, um tempo que a si mesmo se consome obcecado pelo apetite da velocidade. Esse tempo, sim, é um templo. Um templo em que todos somos sacerdotes sem crença. Na minha velha casa, o meu pai perguntava: “se não vai haver festa, para que tanta pressa em varrer a sala?”

Nunca a atualidade se desatualizou tão rapidamente. Estamos muito longe do meu bairro de infância, já não importa a intensidade do que vivemos. Agora, a preocupação é menos viver e mais registrar o sucedido num qualquer aparelho de gravação. Quando estamos em família – na minha família -, e acontece qualquer coisa de extraordinário, há sempre uma voz que reclama: “alguém está a gravar?” Não se trata de fazer uma apologia passadista aqui, ou de recusa dessas vantagens óbvias das novas tecnologias. A questão é saber se nos preservamos soberanos de um processo que nos deveria fazer mais humanos, mais coletivos, mais solidários. A questão é não aceitarmos delegar em máquinas a construção da nossa própria memória viva e orgânica. O prédio de registro pode estar dotado de milhões de bites e megabytes, mas deste outro passado, que só é nosso, não se pode fazer download.

Neste reino de contingência do efêmero, a lamúria tornou-se comum, há uma lamúria que se tornou comum, que é o lamentarmos não termos tempo para nada. Que não temos tempo para visitarmos museus, que não temos tempo para visitarmos uns aos outros. Mas nós não precisamos de mais tempo. Precisamos, sim, de um tempo que seja nosso. Não é uma questão de quantidade, mas de soberania. Só nesse território em que formos soberanos reencontraremos intimidade com as coisas que pedem um tempo para viver e um tempo para morrer. Porque esse luto das coisas perdidas faz parte de nós, desse museu interior, em que, por magia da recriação,l a dor da perda se converte no desejo de uma nova busca.

Caros amigos, se perguntarem (que vou ser breve, porque eu sei que vocês já não devem estar para me ouvir muito), se perguntarem a um camponês moçambicano o que é o tempo, ele responde: “o tempo é uma cobra que come a sua própria cauda”. Ouvi um caçador enfeitar o nome do tempo da seguinte maneira: “o tempo é como a cobra, é um bicho feito só de pescoço”. Se perguntarem a esse mesmo camponês sobre a origem do mundo, ele responde, sem nenhuma angústia metafísica: “o mundo não teve princípio, porque sempre existiu”. A sociedade rural moçambicana é dominada pela ideia de um tempo circular que é bem distinto do tempo linear, sequencial e cronológico que domina a cidade. Nesta outra dimensão circular do tempo, os mortos não morrem nunca, e quem nasce apenas renasce. Neste sentimento do mundo, nós somos os nossos próprios antepassados.

E, a partir de agora, um episódio que me ocorreu em 1978, três anos depois da independência de Moçambique. Na altura, nós vivíamos em Moçambique uma revolução popular comunista e acreditávamos, como uma feliz (ou infeliz) ingenuidade que estávamos criando um mundo novo, que teria tudo de novo e muito pouco de mundo. Eu estava nas matas do norte do país, numa aldeia rural que não era nunca visitada por ninguém. Eu era o primeiro estranho ali a chegar desde há anos, e deram-me guarida numa cabana onde havia apenas um leito feito de bambu e corda. Uma certa manhã, a aldeia foi surpreendida pela chegada de uma brigada proveniente da Coreia do Norte. Eram coreanos museólogos, que tinham recebido a missão de criar o nosso Museu da Revolução. E logo então estranhei, parecia-me que eram duas categorias incompatíveis: o museu era feito para guardar, a revolução era feita para derrubar. Na altura, também lembrei das palavras de Trotsky, onde dizia que o escritor Máximo Gorki tinha acolhido a Revolução Soviética com a inquietação de um diretor de museu. Agora sei como era equivocada essa visão. Os museus só devem guardar passado se no mesmo movimento criarem futuro. Mais do que gerirem espaços, os curadores devem criar essa ousadia do amanhã. Ou dos amanhãs, no plural.

Pois os museólogos coreanos (volto à história) sabiam que Samora Machel, dirigente da revolução moçambicana tinha pernoitado naquela aldeia. Perguntaram à família de camponeses onde é que tinha dormido o lendário guerrilheiro. “Aqui”, responderam eles, apontando para o mesmo leito onde eu dormia. E, de imediato, os coreanos pegaram na cama e a colocaram dentro do caminhão. E assim foi durante o dia inteiro. A mesa onde tinha comido Samora, as cadeiras onde ele se tinha sentado, a marimba onde ele tinha tocado. Num piscar de olhos, os bens dos camponeses confundiam-se em patrimônio histórico. Uma tensão foi crescendo na aldeia. Ao fim da tarde, quando a missão se preparava para regressar, os camponeses rodearam o caminhão e bloquearam a estrada. O mais velho dos homens deu um passo em frente e disse: “levem-nos também a nós”. Houve uma discussão na língua local, que nem eu nem os coreanos entendemos, e de repente os camponeses subiram para as traseiras do caminhão e fizeram com que eu subisse também. E, sem saber como, estávamos todos, eu e os aldeões, viajando pela infinita estrada de areia. Surpreendeu-me os camponeses cantarem e dançarem durante todo o percurso, até que me confessaram o seguinte: era tudo mentira. “Samora nunca esteve na nossa aldeia. O que lhes entregamos estava velho e podre. Nós só queremos ir ver a cidade grande”. Anos mais tarde, fui visitar, na capital, o Museu da Revolução, construído pelos tais coreanos e fiquei abismado. Eu já sabia que a cama em que eu dormira não seria parte desse acervo do museu, mas o que não podia imaginar é como é que aquela instituição nascera de costas voltadas para a cultura moçambicana. Era tudo estranho. Logo à entrada, os coreanos tinham pintado – e o drama é que os coreanos não sabiam ser outros, não se sabiam transferir para um outro lugar. Logo à entrada havia esse grandioso mural em que Samora e os outros dirigentes olhavam, com altivez, o futuro. Era, no fundo, um mural coreano com figuras moçambicanas, com figuras coreanas que eram pintadas um pouco mais de escuro para passarem por africanos. Todo o resto era um transplante mal feito de identidades. Samora Machel era uma versão africana do imortal e falecido Kim-il-sung, cuja glória foi continuada pelo igualmente imortal e famecido Kim Jong-il. Era realmente impressionante, até os olhos dos africanos estavam amendoados. Mas não eram apenas os olhos que eram estranhos. Era o olhar. Havia nesse olhar uma crença cega no futuro. Só pode olhar assim quem está para além da dimensão humana. Naquele mural, duas narrativas se cruzavam em sentido inverso. Para serem deuses, os coreanos tinham que ser imortais. Opostamente, os moçambicanos só se tornam deuses depois de morrerem. Por todas essas razões nasceu na cidade um museu morto, um museu que nem os mortos visitam.

Este caso é apenas uma caricatura da tendência de copiarmos em África aquilo que foi desenhado para um contexto europeu. Não pensamos como fazer museus vivos, que respeitem as culturas e os tempos que são nossos. Aceitamos, todos nós, dentro e fora da África, que os museus devem celebrar a diversidade de culturas do planeta. Mas o inverso também é verdade: a diversidade de culturas deve produzir museus diversos, que se concebem de modo distinto. Os museus que marcaram a minha vida foram aqueles em que aprendi a ser outro; foram aqueles que, para além de um saber adicional, eu sonhei mais.

É bom recordar a origem dos museus que aconteceu em geografias diversas, e eu já falei aqui desse primeiro museu, que nasceu na Babilônia, mas posso falar de um outro, que vocês todos conhecem, nascido em África, em Alexandria, no século III a.C., que inclui esse patrimônio imenso, que passava por uma biblioteca, por um instituto de pesquisa, por um jardim zoológico, em que se estudavam os jardins exóticos. Por ali, passaram pensadores como Euclides e Arquimedes, por ali passaram os fundadores da matemática, das engenharias, da fisiologia, da astronomia. O Museu de Alexandria, eu renovo, nascido em África, foi uma fábrica de futuro. E nós, sem mesmo o sabermos, continuamos a visitá-lo.

Regresso à pergunta inscrita no título desta comunicação: os museus são templos do tempo? Não creio. Primeiro porque não podem. Para que o fossem, tinha que existir um tempo único e singular. Depois, os museus não devem ser templos, os museus devem escapar à sacralização do passado, devem evitar a elitização da arte e devem deslocar-se, de locais de culto, para lugares de cultura.

Caros amigos (estou fechando), as pessoas que fazem a arrumação do meu escritório trazem-me os jornais velhos e querem saber se os podem deitar para o lixo. E perguntam-me assim: “este jornal ainda trabalha?” Gosto da ideia de que um jornal trabalhe, que o jornal tenha vontades e cansaços como qualquer criatura viva. Os funcionários da limpeza pensam o mundo de uma forma que lhes permite ver uma alma nas coisas materiais. É assim que eu vejo o museu: uma entidade viva e com uma alma, e que trabalha como se fosse um jornal ou um livro aberto a todos. Concordo com o colombiano Jorge Melguizo quando, aqui nesta mesma conferência, fez a defesa de uma instituição mais próxima das pessoas e mais ligada à construção da cidadania. Essa cidadania tem hoje que incorporar a reivindicação de um direito novo, que é o direito à diversidade dos tempos. Concordo também com o alerta que esse mesmo Jorge Melguizo fez sobre as falsas saídas para tornar os museus mais atraentes e intervenientes. Uma falsa saída é a tentação simplista de ver na tecnologia a solução de problemas que por essência são éticos e culturais. Os museus serão novos e dinâmicos se forem capazes de criar uma relação emancipadora com a sociedade e com os tempos que se costuram nessa mesma sociedade.

Devo confessar que, nos dias de hoje, esta invasão da tecnologia acontece no meu próprio espaço familiar. Em casa, olho em volta e vejo acontecer uma espécie de cerimonial de feitiçaria informática. Trata-se de uma sutil invasão desse tempo hegemônico do mercado. E vejo que todo, desde os meninos aos mais velhos, se ocupam e são ocupados por uma parafernália de geringonças, que hoje tomam o nome refinado de “gadgets”. A minha sala, que ainda é curiosamente chamada de sala de visitas, exibe uma lista infinita de gadgets (não sei se pronuncio bem): televisores, reprodutores de DVD, computadores, smartphones, tablets, ipads, iphones, playstations, leitores de mp3, personal digital assistants e outros tantos aparelhos que não existiam quando eu saí para o Brasil mas que certamente passaram a existir quando eu regressar a Moçambique. Antes, dizíamos de alguém que falava pelos cotovelos. Pois hoje seria mais apropriado dizer que falamos na ponta dos dedos. Mas talvez falar não seja o verbo, o certo seria teclar. A sala onde todos se dedicam, cada um, a ser sozinho, só na aparência está em silêncio. Um imperceptível ruído nos impede de nos vermos e escutarmos.

Falamos de um museu como um lugar que queremos mais aberto, mais produtivo, mais acessível. Mas o problema da nossa ausência não começa na porta dos museus, começa bem mais perto, começa bem mais no centro de nossa própria vida que foi perdendo o centro. Começa no mundo que nos tornou ausentes de nós próprios. No tempo da minha infância, não precisávamos sair de casa para ir ao museu. Agora, não chegamos nunca a entrar em casa.

Muito obrigado.

Foto: Divulgação.

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3 comentários

  1. agradeço infinitamente o pontapé que você deu no sofá, que trouxe essa transcrição maravilhosa da palestra do mia couto. obrigada claudia! beijos

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