Entrevista com a Gerente de Museus da Prefeitura do Rio

HeloisaDando sequência às entrevistas que venho fazendo com pessoas-chave da Museologia hoje, desta vez a conversa é com Heloísa Helena Queiroz, Gerente de Museus da Prefeitura do Rio de Janeiro.

1. O tema do Dia Internacional de Museus em 2014 foi “Museus: coleções criam conexões”. Como a Gerência de Museus da Prefeitura do Rio de Janeiro entende essa relação entre museus, suas coleções e as relações que eles podem gerar?

Entendemos que o tema demonstra uma forte tendência para a abordagem do caráter informacional dos museus, podendo suscitar diversas questões. Centrando-se nas coleções de museus, formada por meio de processo inicial de musealização, ou seja, a aquisição de bens culturais e na estrutura informacional que formaliza o valor simbólico atribuído aos mesmos, o tema está em total coerência com as atividades atuais da Gerência de Museus da Secretaria Municipal de Cultura. Todos os museus vinculados a esta Gerência estão desenvolvendo atividades que têm a informação em museus como eixo estruturante.

2. Que ações a Gerência de Museus já implementou ou implementará no curto prazo, que incentivem essa conexão entre coleção e público?

O Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro/MHCRJ vem passando nos últimos anos por uma grande revisão da catalogação de sua coleção objetivando a adequação a um sistema informacional que possibilite a inserção e recuperação de dados relacionados aos objetos e seu contexto. O trabalho é desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) que sedia o mais antigo curso de Museologia do país, com mais de 80 anos de existência.

No aniversário de 450 anos da cidade do Rio de Janeiro acontecerá a reabertura do MHCRJ, após a restauração de todo o seu complexo arquitetônico, restituindo ao carioca 1.260m2 de área construída e oferecendo uma programação que vá ao encontro do seu objetivo de preservar e valorizar a memória social do carioca por meio do seu acervo e ainda ser um ponto de referência e discussão das transformações culturais, sociais, econômicas e urbanísticas da cidade do Rio de Janeiro ao longo da sua história. É importante salientar que a reabertura do MHCRJ tem um papel relevante para a Gerência de Museus, pois ela acontece em um momento significativo para a preparação da cidade para sediar os Jogos Olímpicos em 2016.

Seria, portanto, mais que oportuno devolver ao público o MHCRJ em 2015, uma vez que ele é o principal detentor da história da cidade, possibilitando por meio de seu vasto acervo, ressignificações importantes para a formação cultural da população.

A gestão do Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro de Santa Cruz elaborou um projeto para a criação de fichas que sirvam para catalogar os patrimônios da região de Santa Cruz em todas as suas categorias: patrimônio tangível, patrimônio intangível e patrimônio natural. A criação de campos para indexação de dados tão diversos em uma ficha é uma atividade bastante complexa que envolve a análise do conjunto que se quer catalogar para estabelecer um sistema capaz de representar a informação dos diferentes tipos de patrimônio envolvendo o patrimônio e inventários participativos, promovendo a apropriação do Ecomuseu, difundindo suas finalidades e objetivos. O projeto será desenvolvido no próximo ano, quando a Lei Municipal que oficializa sua criação completa vinte anos, envolvendo diversos segmentos da população de Santa Cruz.

O Museu de Arte do Rio/MAR, com sua própria coleção em processo de formação por meio de aquisições e doações correspondentes à sua agenda, possui importante diferencial: uma escola que tem um museu e, ao mesmo tempo, um museu que tem uma escola com o objetivo de estabelecer uma total integração entre arte e educação através de sua coleção e de um programa de formação continuada em artes e cultura visual com professores e educadores. O programa tem a cidade como eixo transversal de suas ações, desenvolvendo atividades relacionadas à coleta, registro, pesquisa e preservação de bens culturais procurando sempre estabelecer, sob a forma de exposições, catálogos, programas em multimeios e educacionais, uma relação estreita com o público.

Pelos exemplos apresentados podemos afirmar que o tema escolhido pelo ICOM vai de encontro com as atividades atuais dos museus vinculados à Gerência de Museus possibilitando, a discussão e o desenvolvimento dessas atividades tanto com a comunidade de profissionais de museus quanto com o cidadão carioca, que utiliza esses equipamentos, nos auxiliando a conformar uma diretriz para nortear as atividades futuras e avaliar as atuais.

3. Em sua opinião, quais museus – no Brasil ou no exterior – são ótimos exemplos dessa conexão?

No Brasil vejo essas conexões se estabelecerem ainda de maneira informal, através de parcerias locais, pois as coleções dos museus brasileiros, infelizmente, ainda carecem de uma maior pesquisa e divulgação de todo o seu valor histórico, artístico e cultural. É impossível estabelecer qualquer tipo de conexão enquanto cada instituição não conhecer profundamente suas próprias coleções e estabelecer primeiramente conexões “domésticas” para só depois, com segurança e conhecimento, propor conexões com coleções de outras instituições.

Ações como a da Superintendência de Museus do Estado do Rio de Janeiro, que desenvolve a Rede Web de Museus, são importantes para que avancemos concretamente na questão. No exterior observo que os museus ingleses conseguem estabelecer de forma clara conexões entre suas coleções resultando, em ações desenvolvidas em parceria entre duas ou mais instituições museológicas.

Percebo que nos últimos anos, os museus ingleses começaram a ter preocupações sociais, num processo de construção permanente, tendo igualmente a capacidade de se relacionar com outras instituições e de reavaliar o seu processo, em constante debate com o público. A experiência inglesa demonstra este desafio perante a relação com diferentes museus mostrando não apenas uma nova dinâmica museológica, mas também uma participação ativa dos públicos, tendo revelado ser positiva pelas diferentes aprendizagens e resultados obtidos.

4. Quais as maiores forças e fraquezas da formação dos profissionais de museus no Brasil?

A maior força é a criação de novos cursos de graduação, em diferentes regiões do país, e pós-graduação em Museologia. Considero uma fraqueza a ser superada é o pequeno número de linhas de pesquisa que estejam sediadas em museus brasileiros e seus acervos. Outra fraqueza preocupante é ainda o pouco conhecimento por parte dos graduandos das possibilidades de atuação no mercado de trabalho e da obrigatoriedade e importância do registro profissional.

5. Em que medida a realização de parcerias internacionais com museus e universidades é relevante para o aprimoramento dos museus brasileiros?

A possibilidade de conhecer outras experiências, por meio de pesquisas, suas metodologias e os elementos de conhecimento que elas produzem, combinando dimensões teóricas e práticas é fundamental para o aprimoramento dos profissionais que desenvolvem suas atividades em nossos museus.

decorative-line-Download-Royalty-free-Vector-File-EPS-2302

Heloísa Helena Queiroz também é 2a. Secretária do COREM 2R – Conselho Regional de Museologia 2a. Região, que compreende Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s