Entrevista com John Matel, Conselheiro Cultural dos EUA no Brasil

Claudia e John Matel 2014 entrevistaEntrevista que realizei com John Matel, Conselheiro para Assuntos de Imprensa, Educação e Cultura da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

Poucos dias depois de nosso encontro, ele deixou o posto para tornar-se senior international advisor na Smithsonian Institution. O que, provavelmente, renderá outra entrevista aqui para o site.

1. Os museus norte-americanos estimulam muita discussão no Brasil por suas ações visando a sustentabilidade (lojas, cafés, aluguel de espaços, investimento em branding). É difícil encontrar o ponto certo entre a exploração comercial, necessária à sobrevivência do museu, e o seu compromisso com a preservação, pesquisa e divulgação do patrimônio cultural?

JM – Acho que não é tão difícil quanto parece. Na minha opinião pessoal, museus são para as pessoas usarem, vivenciarem. E a parte “comercial” ajuda nesse processo. Hoje mesmo eu estava comentando como gosto do Inhotim [Instituto Inhotim, Minas Gerais]. Porque lá você pode ver as obras de arte, a cultura, caminhar pelos jardins, mas você também pode almoçar, passear. A arte deve ser parte da vida, mas o comércio também é. Isso não quer dizer que você precise desembolsar dinheiro para tudo. Mas eu, particularmente, gosto dessa integração: comer, tomar um café, enquanto penso na exposição que acabeu de ver num determinado museu.

É claro que o mercado não deve ditar o que você vai fazer ou ver. Mas é possível encontrar um equilíbrio. Os objetos de arte mais importantes da História foram produzidos com essa tensão entre mercado e artista. Veja Michelângelo, por exemplo, trabalhando para os mecenas: “Eu não quero fazer esse trabalho!” “Mas você vai!” [risos]. Essa tensão não é necessariamente ruim e geralmente não é. Na relação “comércio versus arte”, acho que versus não se aplica. A relação cultura e comércio pode ser ruim, mas também pode ser muito boa.

2. O tema do Dia Internacional dos Museus sugerido pelo ICOM em 2014 foi “Museums collections make connections” (Coleções de museus fazem conextões). Como o senhor interpreta essa frase?

JM – Essa frase é muito importante. Eu acredito na força dessa relação entre coisas e pessoas. Hoje temos fácil acesso a todo o tipo de informação – por meio da Wikipedia, por exemplo. Mas fazer a ligação entre essas informações – dar-lhes sentido, interpretá-las, questioná-las, compreendê-las – isso é que é difícil de se fazer. É o que eu chamo de “wiki-intelligence”. E nisso os museus podem ajudar muito, na interpretação das coleções.

Estudar que conexões podem ser feitas a partir de uma coleção de museu é que é o desafio, é o que é relevante. Isso permite, inclusive, a geração de ideias e conhecimento novos. Uma ideia pode ser passada adiante sem perder a sua força; ela permite inspirar outras ideias, infinitamente.

3. Poderia citar alguns museus norte-americanos que sejam bons exemplos da utilização de tecnologia digital em ação educativa?

JM – Vou falar do Smithsonian, para onde estou indo este mês. Eles estão digitalizando suas coleções. A digitalização das coleções permite o acesso do público a um nível de detalhe do objeto escaneado que é impossível de se ver a olho nu, mesmo estando no museu, frente a frente com o objeto. Esses detalhes, às vezes, não são importantes para mim ou para você, mas pesquisadores e especialistas vão se beneficiam imensamente dessa informação.

É muito interessante também o uso da tecnologia para recriar cidades e cenas inteiras, como as cenas de batalha. Outro papel importantíssimo é auxiliar as pesquisa sobre os objetos das coleções, como aquela que comprovou como as espadas medievais, grandes e muito pesadas, eram manejadas nas batalhas, e aquela outra que mostrou que os dinossauros, afinal, não eram tão vagarosos quanto se pensava.

4. Os Estados Unidos da América têm algum programa, em conjunto com o Brasil, voltado para o desenvolvimento de museus? Por exemplo, programas de intercâmbio ou capacitação?

Entre países, não, porque nos Estados Unidos não há um órgão central que cuide disso. As ações que acontecem são entre instituições e museus específicos. Isso ocorreu recentemente entre o Smithsonian e o IBRAM, que assinaram um memorando de entendimento para a realização de atividades conjuntas de intercâmbio e cooperação, voltadas para a capacitação do corpo técnico e o aperfeiçoamento das atividades desenvolvidas nos museus brasileiros.

No início do ano que vem, virá ao Brasil, por meio de uma dessas parcerias, o programa “Word, Shout, Song“, que fala sobre a ligação entre os povos escravos nos Estados Unidos e suas relações com a África. Será feito um paralelo com o que ocorre no Brasil.

5. O senhor esteve por três anos no Brasil como Conselheiro para Assuntos de Educação e Cultura da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. O que acha que os museus brasileiros têm a ensinar aos museus americanos, e vice-versa?

JM – É difícil falar de forma genérica, pois há muitas diferenças entre os museus, seja de um estado brasileiro para outro, seja dos museus de Nova York para Washington e até mesmo entre museus de uma mesma cidade, como Nova York. O que posso dizer é que Brasil e Estados Unidos têm muitas semelhanças: as dimensões territoriais, a diversidade do povo. E que haveria diálogos interessantes a serem explorados entre os museus daqui e de lá.

Veja o caso dos museus de imigrantes, por exemplo, como o que foi lançado agora em São Paulo, e o que existe na Ellis Island [ilha no porto de Nova York que foi a porta de entrada da imigração para os EUA nos séculos XIX e início do XX]. Pesquisar as diferenças e semelhanças entre os imigrantes italianos nos Estados Unidos e no Brasil, como a cultura italiana veio se modificando nessas duas nações, ao longo do tempo – isso seria muito interessante! E quem sabe promover esse diálogo entre as famílias de imigrantes daqui e de lá, para entender como elas se adaptaram, o que permaneceu e o que mudou.

Uma diferença grande entre os museus brasileiros e americanos é o voluntariado. No Smithsonian, creio que metade das pessoas que lá trabalham são voluntários. Claro que tudo tem seus pontos positivos e negativos. Mas um ponto positivo importante, a meu ver, é que os voluntários trazem ao museu visões novas, muito diferentes. Eles vêm de áreas distintas, têm outras redes de contato e vivem realidades diversas. O trabalho voluntário é maravilhoso, não porque é gratuito, mas porque enriquece a experiência do museu.

 

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