Holanda cria solução para bens de museus fechados

Tive, recentemente, a honra de entrevistar os teóricos da Museologia Peter van MenschLeontine Meijer-van Mensch sobre a Stiching Onterfd Goed, literalmente “Fundação de Bens Deserdados”), que encontra novos destinos para os objetos de museus fechados em função da crise econômica mundial ou que, por qualquer outro motivo, tenham sido destinados ao descarte.

A ideia desta entrevista surgiu de um pequeno artigo sobre a Stiching Onterfd Goed (vide link abaixo), redigido pelo casal de museólogos e divulgado entre os membros do COMCOL – Comitê para o Desenvolvimento de Coleções, do ICOM.

A título de esclarecimento do leitor, eis um exemplo da ação da Stiching:
Em janeiro de 2011, o museu Sryption, em Tilburg, foi obrigado a fechar as portas.
Uma grande parte de sua coleção foi direcionada a outras instituições e a parte restante
foi colocada para “adoção” pela fundação. A Stiching abriu uma ampla discussão, na qual
qualquer pessoa interessada  podia propor uma solução. Três propostas foram pré-selecionadas
e o público foi convidado a opiniar, via Facebook e Twitter. Um juri de especialistas em patrimônio
estudou as propostas e escolheu a vencedora, que foi então apresentada em um debate sobre a Ética do Descarte.

(For the English version, please click here)

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1. A Stiching Onterfd Goed (literalmente, Fundação de Bens Deserdados) é uma fundação particular? Como ela se mantem?

É uma fundação particular, criada como fundação exatamente para garantir o status de instituição sem fins lucrativos. Ela se mantém com a venda dos itens das coleções destinados ao descarte. Uma segunda fonte de receita é a taxa cobrada às organizações que convidam a fundação a assessorá-la nos projetos de descarte. Além disso, a fundação recebe subsídios (governamentais) para alguns projetos específicos.

2. A ideia de objetos “órfãos” sendo oferecidos no e-Bay geraria muita controvérsia no Brasil. Como a sociedade holandesa reagiu?

Em geral, o público reagiu positivamente. Na Holanda, o descarte vem sendo discutido há muito tempo e o princípio é amplamente aceito. No ano 2000, os museus holandeses adotaram diretrizes que já foram atualizadas duas vezes (vejam http://www.comcol-icom.org/wp-content/uploads/LAMO.pdf). Contanto que as diretrizes sejam seguidas, os museus são raramente criticados. Os museus já fizeram uso do e-Bay antes (Stichting Onterfd Goed não foi o primeiro a fazê-lo), como alternativa aos tradicionais leilões e, especialmente, como método de desinsitucionalizar a proteção e a propriedade do patrimônio. Essas diretrizes (que também são seguidas pelo Stichting) estabelecem que o descarte dos itens da coleção sejam primeiramente oferecidos a outros museus. O e-Bay é apenas uma opção a ser considerada quando nenhum museum demonstrou interesse pela peça.

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Item da coleção do Scryption, protótipo de máquina de escrever em braile

Não. Usamos o termo “adoção”, mas em termos legais significa a total transferência da propriedade, sem restrições. Os novos proprietários aceitam ser registrados (de modo a agilizar o convite para que a peça adquirida participe de exposições), prometem proteger do objeto e mantê-lo disponível para as exposições. Mas é uma promessa, não uma condição resolutiva.

4. Podem falar um pouco mais a respeito da noção defendida pela Fundação, de que “os museus não são, necessariamente, os únicos nem os melhores lugares para a preservação do patrimônio cultural”?

O projeto é muito inspirado pela ideologia da Nova Museologia (dois de seus três criadores são ex-alunos da Reinwardt Academy*). A premissa é que a relação entre comunidade e patrimônio deveria ser reconsiderada em termos de responsabilidade, envolvendo questões de propriedade intelectual e legal, tanto quanto propriedade, proteção  e usufruto. O princípio fundamental por trás do projeto são os conceitos de “participação”, “propriedade compartilhada” e “comunidade patrimonial”. Redes de interessados (museus e instituições da área do patrimônio, outras instituições de coleta, colecionadores particulares e qualquer outro proprietário de bem cultural) dividem a responsabilidade pela proteção e usufruto de certas fracções do patrimônio. Isso envolve a própria definição de patrimônio.

5. A Fundação foi criada em meio à crise econômica mundial, que provocou sérios cortes na área do patrimônio cultural e o fechamento de museus na Europa. Ela vai sobreviver, uma vez que a Europa supere a crise?

Talvez, mas provavelmente não. Espera-se que, no futuro, mais museus (especialmente os museus pequenos e especializados, criados a partir de coleções privadas) fechem suas portas ou sejam forçados a uma fusão. De certa forma, isso está ligado à crise econômica global. Mas, mesmo quando a economia se recuperar, não é provável que as autoridades a nível local e nacional mostrem-se ansiosas para gastar mais dinheiro em museus e patrimônio. Espera-se que os museus gerem uma parte substancial de suas receitas a  partir de suas próprias atividades (bilheteria, vendas etc.). Essa habilidade de gerar receita é normalmente considerada prova de relevância social e sustentabilidade.

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* A Reinwardt Academy tem uma importante e antiga relação com a Nova Museologia. A brasileira Paula Assunção, diretora do  Doutorado em Museologia da Academia, é presidente do MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia (http://www.minom-icom.net).

Mais informações sobre a Stiching Onterfd Goed:

Mais informações sobre os entrevistados:

  • Peter van Mensch é museólogo independente, ex-professor de Patrimônio Cultural na Reinwardt Academie, em Amsterdam, e professor de Museologia na Vilnius University, Lituânia. Foi membro da diretoria de várias organizações museológicas. Atualmente, é membro do Comitê de Ética do ICOM. É conferencista convidado regularmente por universidades de todo o mundo e frequentemente figura entre os palestrantes de conferências internacionais. Como pesquisador, interessa-se em desenvolver uma aproximação integral e integrada com o patrimônio.
  • Leontine Meijer-van Mensch é conferencista em Teoria do Patrimônio e Ética Profissional da Reinwardt Academy. Participou de diretorias de várias organizações museológicas. Atualmente, é presidente do COMCOL, Comitê Internacional do ICOM para o Desenvolvimento de Coleções, e membro da diretoria da Escola Internacional de Museologia em Celje, Eslovênia. Como pesquisadora,  trabalha atualmente em um estudo sobre Museologia como Ciência na Europa Central, parte de um programa de doutorado na Europa Universität Viadrina, Frankfurt, Alemanha.

Mais sobre o trabalho de Peter van Mensch e Leontine Meijer-van Mensch:

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