Rencontrei David Bowie em São Paulo

Encontrei David Bowie quando fui a São Paulo no início do mês. Ou melhor, reencontrei, pois há muito que somos profundamente ligados. Eu lhe desejo “feliz aniversário” e mando recadinhos pela mulher dele; conheço seu apartamento no Soho nova-iorquino e compro livros na livraria que ele frequenta.

Dito isso, vamos aos fatos: sendo fã ou não de David Bowie, você deveria visitar a exposição do MIS.

Vinda diretamente do Victoria & Albert Museum, em Londres, a exposição “David Bowie” estará aberta ao público ate o dia 20 de abril no Museu da Imagem e do Som – MIS, em São Paulo.

Sou fã do homem desde os 13 anos de idade, o que soma mais décadas do que você deveria saber. Assim, aproveitei uma viagem de trabalho a São Paulo e fiz a romaria.

A galeria de fotos acima dá uma ideia dos ambientes. A exposição não trouxe toda a coleção exposta em Londres (o espaço brasileiro é bem menor), mas mostrou os principais figurinos das personas de Bowie, como Ziggy Stardust e Thin White Duke, as roupas usadas nas lendárias turnês e uma colagem dos principais filmes de que participou, como Fome de Viver, Merry Christmas Mr. Laurence, A Última Tentação de Cristo, The Man Who Fell to Earth, O Grande Truque e Labirinto.

E acervo para fazer qualquer fã babar, como instrumentos (um sintetizador dado a Bowie por Brien Eno com o bilhete: “Remende nos lugares certos – este aparelho pode fazer sons mais incríveis do que qualquer coisa que esteja sendo comercializada agora”) , manuscritos, as chaves do apartamento de Berlim Oriental em que ele e Iggy Pop moraram, rascunhos de letras de músicas, set lists e projetos de iluminação de shows.

Uma das pérolas é um telegrama desejando sucesso em um show de Bowie, assinado “Elvis and the Colonel“. Outra, uma colherinha de prata para cocaína, usada na época de vício pesado na Califórnia. Descer uma escada em meio a uma revoada de livros lidos por David e parte de sua lista de leituras recomendadas é um belo truque de museografia. Tem de tudo.

A mostra usou tecnologia na medida certa. Ao entrar no ambiente todo preto, você recebe um fone de ouvido, gratuito, que serve para contextualizar a visita em termos sonoros, onde quer que você se encontre. O som começa, para e muda, de acordo com a parte da exposição em que você está. Músicas, na maior parte das vezes, entremeadas por ótimas entrevistas. Também emociona a sala redonda que projeta 360 graus de imagens de shows e back-stage, com o rock comendo solto em seus ouvidos.  No palco abaixo disso, roupas de turnês que entraram para a história dos shows de rock.

Embora eu já soubesse, a exposição me lembrou um dos principais motivos por que sou fã. Bowie não é apenas músico, é um artista na acepção maior da palavra. Bem no estilo “Manual Antropófago” do nosso Oswald de Andrade, ele sorve continuamente uma gama gigantesca de manifestações culturais, diversas e muitas vezes opostas, deglutindo-as e transformando-as em novas formas de arte. Para mal dos meus pecados, a maioria das coisas que ele sorve são as coisas que fizeram parte da minha adolescência e que me emocionam e inspiram até hoje. Coisas que eu também vi/li/ouvi voraz e empolgadamente, sempre: do milenar teatro japonês kabuki ao expressionismo e à vanguarda alemã, do jazz à mímica de Marcel Marceau (OK, Marceau ninguém aguenta), do dadaísmo ao zen, da Bauhaus à literatura fantástica, dos cabarés da Berlim dos anos 1920 à música eletrônica. William Burroughs, Kubrick, Warhol, A Fábrica, Vasarely, Sonia Delaunay, George Orwell, Sex Pistols, os beatniks, Kansai Yamamoto, Alexander McQueen. Glitter rock, puro rock, pop, punk.

Como diz o catálogo da exposição, a influência de David Bowie “sobre a cultura contemporânea é indiscutivelmente maior que a de qualquer outro músico de sua geração. Suas contribuições à musica, à performance, à moda e ao design são marcos de nossa era.”

Pouca gente sabe, mas Bowie é dono de uma das maiores coleções de arte contemporânea do mundo. Ele também se aventura na pintura, escultura e instalações.

O resultado é como a estonteante trajetória desse inglês de Brixton: nem sempre ótimo, mas muitas, muitas vezes, sublime.

Mais informações:
David Bowie
Terça a sexta-feira, das 12h às 21h; sábados, das 11h às 21h; domingos e feriados, das 11h às 20h
Av. Europa, 158 – Jardim Europa, São Paulo – SP
Tel.: 55 11 2117 4777
http://www.mis-sp.org.br

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