nota Ode ao Museu Afro-Brasileiro

MAFRO-OMuseuNa tarde do dia 19 de junho, a museóloga Maria das Graças Teixeira, coordenadora do Museu Afro-Brasileiro da UFBA, realizou a palestra “As coleções do Museu Afro da Universidade Federal da Bahia – MAFRO/UFBA”. O evento integrava a série Memória & Informação, promovida regularmente pela Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Maria das Graças Teixeira é doutora em História e mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tem pós-doutorado em História pela Universidade Lusófona de Humanidades e Artes (Lisboa) e é, atualmente, professora do Departamento de Museologia da Faculdade de Filisofia e Ciências Humanas da UFBA.

O objetivo da palestra era apresentar uma síntese sobre as principais coleções do Museu e expor o plano de ação para conservação preventiva, implantado recentemente na instituição.

O MAFRO foi criado a partir de um programa de cooperação entre o Brasil e países da África, fruto de um convênio entre a UFBA, o Ministério das Relações Exteriores, o MEC, o Governo do Estado da Bahia e a Prefeitura de Salvador. Sediado na capital baiana, o museu possui um acervo de 1.088 peças. Foi aberto ao público em 1982 e é um dos poucos museus brasileiros a tratar exclusivamente das culturas africanas e sua presença na formação da cultura brasileira. São objetivos do museu difundir o conhecimento acerca das culturas africanas e contribuir para a eliminação do preconceito racial e o combate à intolerância religiosa.

Composta de cerâmicas, talhas, esculturas, objetos de ferro e bronze, instrumentos musicais e brinquedos, a coleção do MAFRO divide-se em dois eixos temáticos: Cultura Material Africana e Cultura Material Afro-Brasileira. Dentre as peças, destacam-se panos-da-costa (espécie de xale que é parte do vestuário das mulheres africanas e que hoje está desaparecendo de vários países daquele continente) e a roupa de santo de 50 anos de Mãe Menininha do Gantois.

Há também 27 pranchas em cedro, representando 27 orixás, de autoria de Hector Julio Paride Carybe, conhecido como Carybé (1911-1997), artista argentino que viveu a maior parte de sua vida no Brasil e que se tornou um dos mais importantes nomes da arte brasileira do século XX. As peças, que pertencem à família do artista, estão cedidas em comodato ao MAFRO e correm, por isso, o risco de serem vendidas. Caso sejam compradas por um colecionador particular, por exemplo, uma parte importante da arte brasileira poderá tornar-se inacessível ao público.

Outra coleção de relevo, recebida pelo museu em 2010, foi a Estácio de Lima, composta de 199 objetos confiscados nos terreiros de Candomblé em ações da Polícia Federal na década de 30. Muitos dos objetos que seriam descartados foram mantidos na coleção por pressão do MAFRO e, hoje, higienizados e restaurados, encontram-se em exposição e são utilizados nas ações educativas como documentos de uma época e de um modo de pensar. Iniciativa inteiramente coerente com a visão de Maria das Graças, que considera o museu como “um espaço de poder e conflito, de memórias representadas” e a musealização como o processo que “ocorre quando os objetos da coleção passam a ter caráter de documento”.
MAFRO-Mapa

Criada em 2007, a reserva técnica (RT) do MAFRO foi projetada por Griselda Pinheiro Kluppel, professora da Faculdade de Arquitetura, e financiada pelo BNDES. Constitui-se numa sala de 22m² que abriga 70% do acervo do MAFRO, já que boa parte deste é constituído de têxteis e as áreas de exposição não dispõem de infraestrutura (climatização, mobiliário expositivo) ou projeto luminotécnico adequado para exibir esse frágil tipo de material.

A RT possui estantes de metal, com os objetos organizados por tipologia e por tipo de material. A foto mostrada na palestra exibia objetos acondicionados em papel inerte e Ethafoam (este, para proteção e suporte). Nos casos em que os objetos não estavam embalados individualmente ou em caixas Polionda, foram feitas capas de algodão cru, lavado, que agora envolvem as estantes.

Os procedimentos de higienização das coleções etnográficas e históricas do museu foram realizados numa ação integrada, que tratou todo o acervo armazenado, realizando também pequenas restaurações, a identificação e a documentação das peças.

Gostaria de ter ouvido mais sobre o plano de conservação. Mesmo assim, a palestra foi bastante interessante, pois mostrou o quanto é possível realizar em um museu sem verba e que tem de pouca relevância no organograma da instituição à qual pertence.

O MAFRO tem uma equipe pequena, que inclui uma museóloga e dois assistentes administrativos. Apesar disso, sua criatividade e seu dinamismo permitiram que o museu criasse uma série de recursos para realizar as ações que deveriam fazer parte da “cartilha” básica de qualquer museu, permitindo também ampliar sua equipe com estagiários, bolsistas e pesquisadores.

O museu criou, por exemplo, a TEAM – Teia de Afeto do MAFRO, uma rede (ou “teia”, como eles a chamam) de colaboradores que reúne professores, estudantes, pesquisadores e artistas locais. Realiza inúmeros eventos, como a Semana da África, conferências e ações educativas. Integra-se à comunidade afro-brasileira local, participando, por exemplo, das reuniões dos terreiros de Candomblé. E difunde as pesquisas realizadas nas coleções por meio da impressão de catálogos e publicações, sempre através de parcerias e patrocínios.

O website do Museu Afro-Brasileiro é informativo num nível que falta a muitos museus de grande porte brasileiros. E já há um estudo para a criação de uma base de dados da coleção do museu.

O museu baiano veio ao Rio mostrar que só a preguiça e a falta de criatividade impedem os museus de irem para a frente. Sempre é possível caminhar além das pernas, desde que haja menos palavras e mais ação.

Se há algo a lamentar nessa bela história, é que o museu não mantém, atualmente, convênio com nenhum país africano, atuando inteiramente distanciado daquilo que amparou a sua criação na década de 80 e das culturas que tenciona apresentar ao público brasileiro. Segundo a coordenadora, porém, essa é uma meta a ser retomada.

Baseado no que ouvi na palestra de Maria das Graças Teixeira naquela quente tarde de inverno carioca, isso é apenas uma questão de tempo.

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