O museu de cada um – entrevista com alunos do Curso de Museologia da UFPE

Imagem610Esta é a primeira de 13 entrevistas que farei com alunos de 13 cursos de museologia brasileiros, buscando compreender como vivem e pensam aqueles que serão os futuros responsáveis por boa parte do patrimônio cultural brasileiro.

Com vocês, os alunos do Curso de Museologia da UFPE.

O museu de cada um – Impulsos, Paixões e Desejos de Colecionadores foi uma exposição curricular montada pelos alunos do 6º período do Curso de Museologia da UFPE, para a disciplina Expografia II.

O nome da mostra “O museu de cada um” é ótimo e convida a infindáveis divagações, sobretudo depois que começaram a surgir mais tipos de museus do que público para frequentá-los: museu de vizinhança, museu social, museu a céu aberto, museu comunitário, ecomuseu, museu virtual e por aí vai. Assim,  antes que eu me entregasse a elocubrações, entrevistei os estudantes para entender melhor a proposta e  conhecer um pouco do que se anda fazendo nos berçários museológicos Brasil afora.

Imagem532O depoimento dos alunos é muito elucidativo do tipo de dificuldade enfrentada cotidianamente pelos estudantes de museologia no Brasil. A falta de um espaço específico para as exposições curriculares (leia-se, com toda a estrutura de iluminação, segurança, climatização etc., que é o que toda escola deveria ter) e a falta de recursos foram apenas alguns. Um problema de última hora colocou o grupo à prova, pois a necessidade repentina de troca do local da exposição fez com que, dos três projetos iniciais da turma, tivesse que ser criado um único, o que o obrigou os alunos a repensar, em cima da hora, temática, infraestrutura e acervo.

Driblando imprevistos técnicos e operacionais, a turma conseguiu fazer da exposição um sucesso, a ponto de ser remontada em um evento na própria universidade algum tempo depois. No processo, demonstrou o bem brasileiro “jogo de cintura”, capacidade resolução de problemas, de gestão de crise, mediação de conflitos e criatividade. A utilização da internet como único canal de pesquisa bibliográfica é típico da geração Y (essa que nasceu na era digital). E um quê de originalidade apareceu na inclusão, entre os títulos estudados, de um decreto-lei paulista sobre álbuns de figurinhas.

Especialmente relevantes são as respostas dadas às duas perguntas finais desta entrevista: a primeira pedia a opinião dos alunos sobre o quanto se sentem preparados para o mercado de trabalho. A segunda, como definiriam a museologia atual. Eis o resultado:

1. Quantos alunos estiveram envolvidos na exposição?

No total, foram 15 alunos, mais a professora da disciplina. Foram formadas quatro equipes: de comunicação (quatro alunos); expografia: quatro alunos; pesquisa: três alunos; e educativo: quatro alunos. Contamos, também, com a ajuda de um designer, um roteirista, um iluminador, da museóloga (técnica administrativa) do curso, outros professores e técnicos-administrativos.

2. Qual a bibliografia utilizada na pesquisa sobre o tema?

Imagem535Os textos que serviram para embasamento teórico foram pesquisados na internet. Uma série de textos tratava sobre colecionismo e outra sobre como trabalhar a exposição.

Da primeira série, selecionamos textos que falavam sobre colecionismo e consumo, transtornos de ansiedade [como o obsessivo-compulsivo], curiosidades relativas a colecionadores e até um texto sobre o lado científico do colecionismo.

Para a segunda série,  utilizamos um texto de Maria Ignez Mantovani Franco [da Expumus], que detalha os passos para a montagem de uma exposição, o Caderno de Diretrizes Museológicas I, catálogos e outras publicações especializadas. Utilizamos também o Decreto Lei 41002/96 do Estado de São Paulo, que dispõe sobre o comércio de álbuns de figurinhas, pois trata de objetos facilmente colecionáveis.

3. Como foi feita pesquisa para se identificar os colecionadores?
Imagem618Os colecionadores-referência para os três projetos que serviram de base para o projeto unificado de exposição [no início do semestre havia três projetos de exposição que, depois, se juntaram em um só devido a problemas organizacionais do curso] eram pessoas conhecidas das equipes. E o colecionador do acervo “Museu na Música Brasileira” é um dos colegas de turma.

Uma vez definido o tema central da exposição, partimos para pesquisa do tema e consultamos os colecionadores sobre o que eles gostariam de expor. Não quisemos pressioná-los em suas escolhas, já que os acervos se enquadrava perfeitamente bem no tema.

4. Qual o tempo de planejamento necessário, desde o momento da identificação do tema comum até a abertura da mostra?
O planejamento geral da exposição durou quatro meses, todo o semestre letivo. Considerando cada etapa, dividiríamos assim:

  • 1º. e 2º meses – concepção teórica (o que queríamos apresentar e para quem apresentar) e definição das coleções
  • 3º mês – definição da estrutura expográfica (suportes, quantidade e tipologia dos objetos expostos etc.)
  • 4º mês (duas semanas) –  montagem expográfica

A exposição ficou aberta a público por uma semana. E levamos mais uma semana para redigir e entregar o relatório.

Próximo à data de abertura, tivemos que modificar o projeto e a estrutura expográfica prevista. Isso, porém, teve a vantagem de permitir a inclusão de mais uma coleção.

5. Quem era o público alvo? Ele foi especificado no projeto da exposição?
Eram os estudantes do próprio NIATE-CFCH/CCSA (Núcleo Integrado de Atividade de Ensino). Pensamos em ampliar o público, mas, devido às limitações do espaço, desistimos. O NIATE CFCH/CCSA não oferece condições para receber pessoas com deficiências (o que seria constrangedor); por estarmos em período de aulas, a movimentação de alunos poderia também complicar o trânsito dos visitantes externos. Também há dificuldade em se localizar o prédio do NIATE CFCH/CCSA, já que no campus há três NIATEs, nenhum deles com sinalização.

6. Antes desta entrevista, vocês mencionaram problemas financeiros. Há verba, mínima que seja, para a criação da mostra? Levantar recursos fez parte do projeto de vocês? Há alguma disciplina no curso que aborde o tema “captação de recursos”?
Imagem644Inicialmente, estava previsto recebermos auxilio da Pró-Reitoria de Extensão da UFPE (PROEXT) para impressos, além da realização do coquetel. Não há verba especial para a realização de exposições curriculares – nós usaríamos a verba de um projeto específico.

Não fazia parte do escopo do projeto da disciplina a captação de recursos. Estávamos confiantes na utilização dos recursos da PROEXT e a verba para aquisição dos materiais de menor valor seria assumida pelos alunos por rateio. Infelizmente, devido a atrasos, não pudemos usar o recurso da PROEXT, de modo que, ao final, os alunos e a professora acabaram assumido os custos totais da exposição: impressos, coquetel, transporte e compra de materiais).

Outra dificuldade foi em relação a transporte e aos suportes (estruturas para expor os objetos). Não tínhamos à nossa disposição nem iluminação nem expositores. Conseguimos emprestado junto ao Centro Cultural Benfica dois expositores, pagando o transporte dos mesmos, visto que a Universidade não poderia trazê-los por falta de pessoal para carregá-los. Outros materiais usados para a montagem do ambiente foram alugados, emprestados ou trazidos de casa pelos alunos.

7. Qual os objetivos (geral e específicos) da exposição?

Tínhamos como foco principal mostrar que todos podem ser colecionadores e ter coleções, mesmo sem percebê-lo. Com isso, ainda seria possível mostrar que nem tudo é considerado coleção e, também, dar a possibilidade do visitante se perceber como um não-colecionador, isto é, afirmar-se como alguém que não possui este desejo.

Queríamos mostrar que uma coleção pode se formar de objetos comuns, inesperados e até mesmo “invisíveis” (sachês de catchup e músicas, por exemplo), não apenas a partir dos “clássicos” colecionáveis como moedas, quadros e selos. Também tínhamos como objetivo diferençar o colecionismo da simples acumulação de objetos. Há algumas convenções inerentes à existência de uma coleção. O colecionismo é algo pessoal, mas que depende de relações com a sociedade para a sua validação.

8. Vocês, em breve, vão assumir cargos em museus brasileiros. Sentem que foram bem preparados para isso, haveria alguma disciplina que acham que deveriam ter tido durante o curso?

Afirmar categoricamente que estamos ou não preparados para atuar em museus só será possível quando estivemos efetivamente trabalhando numa instituição. Poderemos avaliar melhor durante o estágio obrigatório.

No momento, sentimos falta de aplicar as teorias que estudamos em disciplinas que previam a sua aplicação, como nas disciplinas de documentação. Em outros casos, temos noções de aplicação prática, mas com pouco referencial teórico. Há, sim, muitas lacunas no ensino da museologia, mas, que o amadurecimento do curso irá sanar.

9. Em até 300 caracteres, como vêm a museologia, hoje, no Brasil?

A museologia está em fase renascimento, se livrando da timidez que possuía perante a sociedade e outras ciências. Mas, ainda carece (e não por falta de tentativas) de ações mais claras e energéticas que a situem, a ponham na frente, no mercado cultural do Brasil e perante as outras ciências afins.

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Fotografias: Fotos gentilmente cedidas pelos alunos.

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3 comentários

  1. Apenas complementando, Além da coleção Museu na música brasileira do nosso colega Anderson, tivemos a coleção de medalhas e moedas comemorativas do também colega de turma José Ramón.
    Obrigado.

  2. Gostaria de lhe agradecer Cláudia, pois o seu site é mais um passo para esse “renascimento” da nova museologia no país. Quero em nome da turma que realizou essa Exposição agradecer também a você por nos proporcionar essa visibilidade do nosso Curso aqui da UFPE. E agradecer a todos que tornaram a realização desse projeto possível. Obrigada amigos e parabéns mas uma vez pelo sucesso da nossa Exposição: Museu de Cada Um – “Impulsos, Paixões e Desejos de Colecionadores” é só uma de muitas que estão por vir do Curso bacharelado em Museologia da UFPE. Obrigada!!

  3. Stefhanie e Adriano,
    Não têm por que agradecer, o interesse foi meu. Mas, se forem agradecer (hehe), a melhor forma será divulgando este site entre seus colegas e professores. A ideia do site é trazer ideias novas e colocar museólogos e profissionais de museus de todo o país em contato, trocando opiniões. Então, toda participação será mais do que bem-vinda.
    Abraços,
    Cláudia Porto

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