Brasil e Reino Unido juntos pela museologia – Entrevista com Jane Weeks

Jane WeeksEsta semana, alguns dos principais diretores de museus brasileiros participaram de uma visita de estudos a museus na Inglaterra e na Escócia, patrocinada pelo British Council. Entre eles, Paulo Vicelli (Pinacoteca do Estado São Paulo), Angélica Fabbri (Museu Casa de Portinari), Renata Salles (Inhotim), Katia de Marco (Museu Antonio Parreiras), Hugo Bianco (MAM-Rio), Sabrina Curi (MAC-Niterói) e André Venzon (Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul).

Falei dessa viagem e do programa Transform no post British Council leva museus brasileiros ao Reino Unido.

Aproveitei o assunto para entrevistar Jane Weeks, consultora de museus e patrimônio para o British Council, a propósito dessas visitas e dos objetivos do Conselho com relação aos museus brasileiros. Eis a íntegra, em português e em inglês:

(Interview with Jane Weeks, Museums & Heritage Adviser for the British Council.
Please find the English version below)

1. Por que o Programa Transform, para museus brasileiros e britânicos? Como surgiu a ideia?

A ideia de incluir museus no Transform  [o programa de artes e criatividade do British Council que tem por objetivo desenvolver o diálogo artístico entre o Reino Unido e o Brasil nos próximos quatro anos] nasceu de reuniões entre o Ministério da Cultura, o IBRAM e o Conselho Britânico. Pareceu surgir na hora certa, em função da grande quantidade de museus que estarão sendo criados no Brasil até as Olimpíadas.

Nos últimos dez anos, o Conselho Britânico trabalhou com museus em mais de 40 países, incluindo o Irã, Rússia, China e Índia, organizando seminários e oficinas, apoiando o desenvolvimento de parcerias bilaterais, por isso pareceu natural incluir museus no programa.

2. Quais os critérios para escolher os profissionais de museus que são convidados para as visitas de estudo?

Não há critérios específicos, além do interesse em desenvolver vínculos com a Grã-Bretanha (ou com o Brasil, no caso dos participantes britânicos), ou a relevância do museu com relação ao foco da visita em si. As dimensões do museu não são um critério: no Reino Unido, por exemplo, há tanto museus nacionais de grande porte quanto pequenos museus independentes que têm interesse em criar laços com o Brasil.

Nosso objetivo é incluir a maior variedade possível de museus brasileiros, pois assim poderemos mostrar aos museus britânicos o quão vibrantes e diversificados são os museus no Brasil.

3. O que acontece depois das visitas? Há alguma plataforma online por meio da qual os grupos se mantêm em contato e discutem mais aprofundadamente os temas das visitas?

Sim, o website do Transform ( www.transform.britishcouncil.org.br ) oferece uma plataforma onde as conversas são aprofundadas.

4. Que resultados práticos o Transform apresentou até este momento?

O Transform é um programa de quatro anos e começou no final do ano passado. Portanto, ainda é cedo para termos resultados práticos. No entanto, já surgiram algumas parcerias, por exemplo: entre o Museu do Futebol, em São Paulo, e o National Football Museum, em Manchester; entre a Pinacoteca do Estado, em São Paulo, e a Tate, em Londres; e entre o Ministério da Educação brasileiro e o Science Museum. Outro resultado foi despertar o interesse do Reino Unido pelos museus brasileiros, por meio de visitas de profissionais do British Museum, Victoria & Albert Museum e do Science Museum ao Brasil; e , do Brasil em relação aos museus britânicos, com as duas visitas de estudo realizadas.

Há também a perspectiva de intermediarmos uma parceria entre a UNIRIO e a University of Leicester, ambas universidades com importantes departamentos de museologia em seus respectivos países. E estamos oferecendo bolsas para que jovens estudantes de museologia britânicos possam assistir à Conferência Geral do ICOM que, este ano, acontece no Rio de Janeiro.

5. Qual são os principais problemas enfrentados, nos dias de hoje, por museus brasileiros e por museus britânicos?

Na Grã-Bretanha, o principal desafio neste momento é de financiamento, pois a recessão econômica fez com que a verba de vários museus vinculados aos governos nacional e locais fosse substancialmente cortada. Como resultado, eles agora estão procurando se reestruturar, reduzindo equipes e o período de abertura – são tempos difíceis.

No Brasil, minha impressão é que um dos maiores desafios para vários museus é atração de grandes audiências e o estabelecimento de vínculos com a comunidade. Acredito que tanto museus brasileiros quanto os britânicos reconhecem a vital importância do desenvolvimento de profissionais qualificados em captação de fundos, legislação e crescimento.

6. Quais são, na sua opinião, as maiores liçõs que a Grã-Bretanha pode aprender com os profissionais de museus brasileiros?

Uma das coisas que percebi em minha visita ao Brasil no ano passado foi o quanto o significado da palavra “museu” é amplo no país. Fique extremamente impressionada com o Inhotim, uma extraordinária mistura de jardim botânico e parque de escultura. Não temos nada parecido aqui, e eu achei esse fato bastante inspirador. Também fiquei impressionada com o Museu da Maré, no Rio, um belo exemplo de museu que cresceu que cresceu para fora de sua comunidade.

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Interview with Jane Weeks – Museums & Heritage Adviser for the British Council

1. Why a Transform Programme for Brazilian and UK Museums? How did the BC come up with the idea?

The idea of including museums within the Transform programme grew out of meetings between the Ministry of Culture, IBRAM and the British Council. It seemed very timely, given the large number of museums being developed in Brazil in the run up to the 2016 Olympics in Rio. Over the last ten years, the British Council has worked with museums in over 40 countries, including Iran, Russia, China and India, running seminars and workshops and supporting the development of bi-lateral partnerships, so it was natural to include museums in Transform.

2. Which are the criteria for choosing the museum professionals that are invited to the Study Tours?

There are no specific criteria, beyond an interest in developing links with the UK (or Brazil, for our UK participants) and the relevance of the museum to the focus of the study tour. Size is not an issue: in the UK, we have large national museums and small independent museums which are interested in building links with Brazil. Our aim is to include as wide a variety of museums as possible from Brazil, in order to be able to demonstrate to museums in the UK the vibrancy and diversity of the Brazilian museums sector.

3. What happens after the tours? Is there any online platform through which the groups stay in touch and discuss further on the topics they’d talk about?

Yes, the Transform website www.transform.britishcouncil.org.br offers a platform to carry on the conversation.

4. Which are the actual results achieved so far with the Programme?

Transform is a four year programme and we only started at the end of last year, so it’s early days yet, but we have already supported the development of a number of partnerships, between the Museu do Futebol in Sao Paolo and the National Football Museum in Manchester, between Pinacoteca in SP and Tate in London, and between the Ministry of Education in Brazil and the Science Museum. We have also raised awareness of UK museums in Brazil, through supporting visits to Brazil by the British Museum, Victoria & Albert Museum and the Science Museum, and raised awareness of Brazilian museums within the UK by running two UK study tours. We are hoping to broker a partnership between UNIRIO and the University of Leicester, both of which have distinguished museology departments, and are providing bursaries for young UK museum professionals to attend the ICOM General Conference in Rio this year.

5. Which would you say are the main problems that Brazilian and British museums (and museum professionals) face nowadays?

In the UK, the main challenge at the moment is funding, as the recession means that many museums funded by national or local government have had their grants cut substantially. As a result, museums are looking at restructuring, reducing staff and reducing opening hours; it’s a challenging time. In Brazil, my impression was that attracting a wider audience and building links with their community were challenges for many museums. And I think both Brazilian and UK museums recognise the vital importance of developing the skills of their staff, in fundraising, advocacy, and development.

6. What would you say is the most important thing that the UK can learn from Brazilian museum professionals?

One of the things that struck me during my visit to Brazil last year was how broad a meaning the word ‘museum’ has in Brazil. I was enormously impressed by Inhotim, an extraordinary mixture of botanical gardens and a sculpture park; we have nothing like it in the UK, and I found it utterly inspiring. I was equally inspired by my visit to Museu da Mare in Rio, a shining example of a museum that has grown out of its community.