Um ousado olhar britânico sobre o museu contemporâneo

Sheila Watson - LeicesterEntrevista com a Dra. Sheila Watson, vice-diretora do Departamento de Museologia da Universidade de Leicester, GB

Pontualmente às 20h de uma quarta-feira (afinal, é de bom tom ser britânica no que toca às horas) peço à recepção do hotel para chamar a minha entrevistada, uma das mulheres mais gentis, inteligentes, colaborativas e open-minded que tive a honra de conhecer nos últimos anos: a Dra. Sheila Watson, professora e vice-diretora do Departamento de Museologia da Universidade de Leicester, Inglaterra.

A pedido do British Council, eu vinha acompanhando a Dra.Watson em seus compromissos nos museus do Rio, com o objetivo de divulgar os comprimissos cariocas dessa museóloga em meus canais na internet – site, Facebook, Twitter -, bem como em outros canais web ligados aos museus e à museologia.

Dividi a entrevista que se seguiu – e que durou mais de duas horas – em duas partes distintas, uma de análise dos museus e da museologia, outra sobre o curso de Leicester (cuja pronúncia em inglês soa algo como “léisster”) e a formação de profissionais de museus.

A segunda entrevista foi publicada no site do COREM 2ª. Região, de cuja Comissão de Informação e Divulgação sou presidente. A primeira, você lê agora:

A definição de museu do ICOM ainda é válida? Você sugeriria outra?

Esta é uma pergunta interessante. Os museus estão se desenvolvendo muito, mudando muito… Talvez devamos, sim, pensar em novas definições.

Museus são parte integrante do modo como nos comportamos em sociedade. Há vários  museus que não são reconhecidos como museus, seja porque pertencem a um indivíduo, seja porque são parte de um conjunto de museus, como as áreas de patrimônio rural ou paisagístico. Em 2003, se não me engano, houve um forte movimento no sentido de eleger o patrimônio intangível como um dos elementos fundamentais  da museologia.

Por aí, você vê que é muito difícil explicar os museus com apenas uma definição. Qualquer tentativa nesse sentido fica sempre um pouco atrás do que a museologia estará criando de novo – e isso é uma vantagem importante.

Por exemplo, nós duas conversamos [antes da entrevista] sobre as ideias do Dr. Ross Parry [diretor acadêmico da Escola de Museologia/ Univeridade de Leicester] sobre museus digitais. Na Universidade de Leicester, temos discutido com nossos alunos sobre como é possível falar-se de museus digitais, quando esse tipo de museu não está previsto na definição do ICOM. Talvez o museu digital não “caiba” nessa definição, mas nem por isso ele deixa de ser um museu. Ele é, certamente, parte da sociedade moderna.

Creio que dei muitas voltas para responder à sua pergunta, mas é que não tenciono de modo algum fazer uma crítica ao ICOM. Acho que, hoje, é impossível definir um museu como se fazia no passado. Uma opção interessante seria usar a definição de museu do ICOM como ponto de partida, ao invés de vê-la como limite, delimitação. Interpretá-la como o início de uma definição e não como sinônimo da palavra “museu” em si. Os museus que se enquadram nas definições de museus são um tipo de museu – mas há outros, e precisamos começar a pensar neles também.

Ainda sobre os museus digitais, assisti há pouco tempo uma palestra online em que um diretor de museu dizia que a internet jamais esvaziará os museus, porque resta sempre o fascínio pela peça original. Você concorda? Se aquela peça não tem significado para a comunidade, ainda assim seu apelo permanece?

Pois é, às vezes acho que se dá importância demais ao objeto em si: o que acontece quando não houver mais a peça original? Fiquei emocionada com uma matéria que li recentemente sobre um museu em uma vila dos Bálcãs, logo após a guerra [as Guerras Balcânicas foram conflitos bélicos ocorridos no sudeste europeu, no início do século XX]. Muitas pessoas daquela vila acabaram refugiadas em diferentes partes do mundo porque tiveram que abandonar seu país de origem. Os diferentes grupos de refugiados se encontraram via web e criaram um mapa online da sua cidade natal. E começaram a adicionar fotografias de suas casas, de suas famílias, de cenas cotidianas e fotos de cemitérios, honrando seus mortos. Postaram também as histórias que acompanhavam essas fotos. Esse era, então, o “museu da casa desaparecida”, “do espírito perdido”. Que tipo de museu era esse? Certamente um de enorme relevância para aquelas pessoas, cujos laços estreitos com a comunidade muitos museus institucionalizados gostariam de ter. Um lugar de memória, um modo que aqueles refugiados tiveram de expressar a sua dor e de lidar com essa dor.

Quantas outras experiências similares estão acontecendo hoje no mundo,  sobre as quais nada sabemos? E como podemos afirmar que elas não são museus, se levarmos em conta a função que um museu deve ter?

Hugues de Varine declarou, em uma visita recente ao Brasil, que os museus latinoamericanos, historicamente, se dedicam  mais às questões sociais do que os museus europeus. Você concorda? É preciso que todos os museus sigam o caminho da ação social?

Em primeiro lugar, devo dizer que eu fiquei muito impressionada com o que vi e ouvi no MAR [Museu de Arte do Rio]. Acho que é muito interessante o modo como esse museu está se aproximando da comunidade do entorno e se relacionando com ela. Mas eu não conheço muitos museus no Brasil, ou na América Latina. Portanto, não gostaria de fazer uma comparação.

O que eu penso é que, na Europa, há todo o tipo de museus realizando todo o tipo de trabalho. Muitos realizando importantes ações sociais. Visitei museus na Suécia e na Noruega onde está-se fazendo um trabalho muito criativo com comunidades excluídas, seja através das exposições permanentes ou temporárias.

Uma das ações, por exemplo, se dedica aos lapões [ou saami, um dos maiores grupos indígenas da Europa, que vive entre a Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia]. Os lapões vivem além de fronteiras nacionais e chamam a si mesmos de “Nação”. Um trabalho com esse povo, portanto, não precisa e não deve estar num ponto geográfico específico. Esse projeto – que encontra-se ainda nos estágios iniciais – está fazendo com que Suécia e Noruega trabalhem juntos em uma nova concepção do povo saami. São exemplos de países que estão se dedicando enfaticamente a repensar o que é um museu, qual pode ser o papel social de um museu e como o museu pode estabelecer uma relação positiva com a comunidade, com o objetivo final de fazer com que ela se beneficie concretamente dessa relação.

Como eu disse, não conheço muito dos museus da América Latina, mas não gostaria de diminuir a ação social desenvolvida pelos museus europeus. É claro que há museus bastante tradicionais, mas há muitos exemplos de práticas sociais relevantes.

Acredita que os profissionais de museus precisam se “abrir” mais, de modo a abraçar novas ideias e experimentar novas maneiras de se relacionar com o público?

Ótima pergunta. Definitivamente, qualquer museu, em qualquer lugar do mundo, pode aprimorar o trabalho que faz, pois isso é parte do que se espera deles, do que eles são.

Muitos museus ainda entendem a comunicação como uma via de mão única, como se a missão deles fosse comunicar ao público o que lhes interessa.

Atualmente, temos um modo mais sofisticado de aprendizado e de educação – “aprendizado” aqui entendido como um processo ativo e “educação”, como um conjunto de conhecimentos.

A comunicação em museus deveria ser um processo de mão dupla. É preciso trabalhar junto com o visitante para descobrir de onde ele vem e o que ele quer saber. As pessoas de hoje são aprendizes sofisticados. Elas podem não ser aprendizes convencionais, pois têm celulares e internet… mas estão aprendendo muito mais rapidamente agora do que aprendiam no passado.

As pessoas estão desenvolvendo e se habituando a novos modos de pensar. O velho modo tradicional de aprendizado, em que o público olha os objetos e lê as etiquetas, não irá despertar interesse em muitas dessas pessoas.

No meu ponto de vista, os museus se beneficiariam muito em pensar de forma mais aberta a comunicação museal, planejando-a a partir do visitante e não a partir da coleção.

Quando eu trabalhava em museus na Grã-Bretanha, as pessoas vinham me dizer que desejavam planejar exposições e eu lhes perguntava: “Por que queremos fazer essa exposição?” E elas diziam: “Bem, nós temos esses objetos na reserva técnica e precisamos mostrá-los ao público”. Eu respondia: “Fantástico! E qual será o tema da exposição?” E a resposta era, por exemplo: “Nós pensamos em usar os objetos para traçar a história do design.” E quando eu sugeria que talvez o público não se interessasse por esse tema, mas que possivelmente se interessaria em saber como cada objeto era usado na vida cotidiana, a equipe dizia: “Não, não: nós queremos tratar sobre a história do design”.

Portanto, pela minha experiência, precisamos mudar significativamente o nosso modo de pensar. Sim, os museus são os especialistas. Os profissionais dos museus conhecem, pesquisam e preservam os objetos, mas, de certa forma, é um tanto presunçoso acharem que sabem o que o público quer. Algumas vezes, os museus acertam e criam exposições excelentes, que incendeiam a imaginação do visitante. Isso é fantástico! Mas outras vezes eles erram espetacularmente. Por isso, precisamos realmente ampliar os processos de comunicação.

Como vê a museologia brasileira?

Eu sei pouco sobre isso: na verdade, estou aqui para aprender.

Tereza Scheiner [museóloga e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio da UNIRIO/MAST] me contou um pouco sobre o nascimento e a evolução da museologia no Brasil. Acho que temos um background comum, por assim dizer, mas prefiro não comentar mais sobre o tema antes de me instruir um pouco mais sobre ele.

O que os museus podem fazer para criar novos públicos?

Uma das coisas que os museus podem fazer é descobrir quais os públicos com quem desejam se comunicar. E começar a planejar as exposições a partir dessa questão. Não dizer “queremos fazer esta exposição”, mas dizer “queremos fazer uma exposição para…”. Reconhecer que diferentes grupos terão diferentes interesses.

Nos museus que eu conheço, eles partem de conversas iniciadas nos comitês de programação sabendo que farão exposições para incluir públicos diferentes, mas também sabendo que nem toda exposição irá levar todos os públicos até o museu.

Por exemplo (e me valho aqui de um caso real), um museu pode planejar uma mostra sobre futebol, de modo a estabelecer uma relação com um público que normalmente não frequentaria a instituição. Mas a ideia da exposição sobre futebol não irá surgir por si própria. A equipe deve identificar os grupos que estão mais distanciados do museu e realizar pesquisas para descobrir o que essas pessoas gostariam de ver nas salas de exposição, o que as levaria até lá. Porque nós queremos chegar até essas pessoas. Queremos que elas entrem no museu para ver a mostra sobre futebol e, depois, voltem para ver novas exposições.

Nesse caso real, o museu criou uma exposição sobre a história dos clubes em parceria com a Associação de Futebol. Assim, atraiu centenas de pessoas que jamais teriam ido àquele museu por outros caminhos. A exposição seguinte desse museu foi muito diferente – sobre dinossauros; e a que foi montada depois dela versou sobre um tema totalmente diferente. Este é um exemplo de um museu que está tentando construir seu público de uma maneira inovadora, pois não começa dizendo “queremos fazer uma exposição sobre este assunto” e sim “queremos fazer uma exposição para este público”.

Este enfoque, porém, traz dificuldades. Uma delas é que você pode perder muito tempo tentando trazer as pessoas para uma sequência de exposições (visando a criar no visitante o hábito de ir ao museu), mas não conseguir alcançar esse objetivo e as pessoas não quererem voltar.

Portanto, é preciso que o museu aja com sagacidade e pense, não apenas em montar exposições para as pessoas que estariam habitualmente fora do seu campo de influência, mas também em criar programas que formem vínculos permanentes com essas pessoas. Assim que o museu tiver estabelecido que públicos são esses e trabalhado na divulgação adequada para atingi-lo, será a hora de lançar, por exemplo, um programa educativo que faça esses visitantes se interessarem quando a próxima exposição abrir. Só assim ele não perderá o público que conseguiu alcançar com aquela primeira exposição.

Voltando ao meu exemplo real, depois da exposição sobre futebol, aquele museu montou uma exposição sobre dinossauros. Nesse caso, o objetivo era alcançar os familiares de quem foi à primeira exposição. Todo o marketing foi feito para atrair essas famílias, algo como “se você gostou da exposição sobre o futebol, você realmente vai gostar de passar um dia com a sua família nesta nova exposição!”. Isso ajuda a estabelecer uma relação concreta na mente das pessoas entre o prazer que elas tiveram e uma nova possibilidade de prazer. Elas podem pensar: “Sim, talvez eu vá assistir a essa outra exposição.”

Finalizando, acho que não há uma única receita. ´Tudo é questão de se chegar até o público por meio de um planejamento inteligente e elaborado, criando não apenas exposições, mas estratégias plenas para interagir com os visitantes e fazer com que eles continuem indo ao museu.

De que forma as novas tecnologias – como a internet, os tablets, o ensino à distância – podem aprimorar, ou pelo menos complementar, a experiência museal?

Há vários museus utilizando a internet para divulgar suas instalações e disponibilizar o catálogo de seus acervos online. Mas há muito mais a fazer, inclusive usar a internet para que os profissionais de museus possam trocar experiências e colaborar entre si, a nível mundial.

Um exemplo criativo é o do Victoria & Albert Museum. Eles têm uma vasta coleção de peças em tricô que não podia estar em exposição. O que fizeram? Criaram um “clube do tricô”, um website (dentro do site do V&A) para entusiastas dessa arte, onde se pode encontrar dados sobre o acervo do museu, sobre a história do tricô e um catálogo de padronagens da década de 1940, além de entrevistas e reportagens sobre o assunto na moda e na arte contemporâneas. Foi um sucesso! Vendo as peças da coleção do museu publicadas no site, as pessoas começaram a postar ali fotos de seus antepassados usando peças similares e criaram até novas padronagens, compartilhando as imagens online. Criou-se uma comunidade viva e interessada no assunto, que ficou mais próxima do museu. [Para os interessandos em conhecer essa iniciativa do V&A, o endereço é: http://www.vam.ac.uk/page/k/knitting/]

Questionários de museus, por exemplo, nunca fazem as perguntas certas; diretores entendem profundamente de seus museus em termos institucionais, mas é um pouco mais raro vê-los olhar para além das paredes das instituições e em direção ao mundo digital. É preciso haver profissionais com esse olhar em postos hierárquicos chave – ou seja, com real poder de decisão – para que seja possível realizar as mudanças necessárias.

Como derrubar as barreiras que ainda se impõem entre os museus e os seus públicos?

Certamente, perguntar o que e como o público quer ver um assunto tratado. Trabalhar com o visitante. É preciso conseguir estabelecer um diálogo real entre museu e público. E criar mecanismos de avaliação sobre as exposições realizadas – qual a avaliação do público, o que ele realmente compreendeu daquilo que viu, o que a mostra trouxe de concreto para a vida cotidiana das pessoas e, sobretudo, o que o visitante pensa sobre as exposições que o museu realiza.

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