Os museus de Marcello Dantas

Ontem fui a uma ótima palestra de Marcello Dantas no POP – Polo de Pensamento Contemporâneo, concorrente da Casa do Saber no Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Trabalhei com ele no Museu da República e queria ver de perto o que esse inquieto carioca andara fazendo no campo da Museologia e das Artes.

Marcello (designer e curador de exposições, criador da Magnetoscópio) discorreu sobre as exposições e os museus que criou nos últimos 20, 25 anos, mostrando fotos e videos de alguns dos recursos que ele usa para despertar a atenção e a curiosidade do público, criando a partir daí uma relação emocional que – todos sabemos – é capaz de reforçar o aprendizado em qualquer cérebro.

Para quem não conhece o “método Dantas”, eis o que diz a bio publicada no site da Magnetoscópio: “Seus trabalhos se concentram na potencialização de conteúdos históricos com uma gramática altamente imersiva onde a sensorialidade e a percepção são enfatizadas.” Visando alcançar esses objetivos, Marcello quase sempre lança mão de muita tecnologia de ponta. Mas, antes que algum desavisado leitor saque a clássica frase “Também, com muito dinheiro, qualquer um faria”, vou avisando: às vezes, ele cria coisas interessantíssimas só com uma mesa de madeira e os cotovelos do público.

As exposições construídas por esse criativo de 45 anos são fruto de muita coragem, determinação, ousadia, criatividade, dedicação e vontade de aprender. São fruto, também, de meses de pesquisas feitas por uma equipe multidisciplinar competente. Mas parte dessa pesquisa é depois, de certa forma, “descartada” em nome da licença poética e da utilização do que Marcello chama de “criação da evidência”: inserção digital de imagens em vídeos reais de biomas nordestinos, exibição de conversas que nunca ocorreram de verdade (embora sempre baseadas em fatos históricos) etc.

Por experiência própria, posso imaginar o quão difícil deve ter sido dar à luz cada um desses trabalhos em meio a pensamentos demasiado tecnicistas, protecionistas ou, simplesmente, limitados, de algumas pessoas que ele encontrou pelo caminho. Portanto, acrescente-se à lista de qualidades acima uma boa dose de capacidade negocial.

Não conheço os museus e as exposições de Marcello Dantas a fundo. Muito menos, o caminho percorrido até a abertura de cada um deles. É claro que os procedimentos de documentação, preservação e segurança do acervo têm que ser respeitados; e é claro que é preciso um compromisso ético com a autenticidade da informação que está sendo transmitida num museu. Mas admiro a maneira aberta, plural e orgância das criações do curador.

Acho que ainda falta muito desse tipo de ousadia aos museus brasileiros. A muitos, não a todos – até porque, se todas as exposições seguissem sempre a mesma fórmula, retomaríamos a situação modorrenta das mostras do século XIX.

Para você ter uma ideia do que estou falando (e, quem sabe, programar a sua próxima viagem), listo abaixo os endereços web desse  vários museus concebidos por Dantas e sua equipe. Dê uma olhada, critique, “desça o malho”, elogie, inspire-se.

Museo del Caribe – primeiro museu regional colombiano.

Museu das Minas e do Metal – mineração, metal e a importância deles na vida de todos nós.

Museu da Gente Sergipana – a identidade do sergipano.

Catavento Cultural – centro de ciências e cidadania em São Paulo.

Museu das Telecomunicações – viagem pelo passado e pelo presente da comunicação no Brasil e no mundo.

Museu do Homem Americano – a origem do homem e o povoamento das Américas, vistos pelos 39 anos de pesquisas realizadas na Serra da Capivara, Piauí.

Museo de la Independencia – Casa del Florero – museu de história na Colômbia.

Museu da Língua Portuguesa – só indo lá para entender.

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