A boa ideia do museu e o resultado da escola

Mês passado fui com uma amiga ao Instituto Moreira Salles (ok, não é museu, mas você entendeu a ideia) para ver a ótima exposição de fotografias de Thomaz Farkas, e aproveitamos para dar uma olhada num projeto educativo da casa, chamado “Ver e Fazer”.

Todos os anos, as escolas parceiras do Instituto recebem duas reproduções de imagens do acervo para serem utilizadas como suporte de aprendizagem do currículo escolar. Em 2011, as imagens escolhidas foram uma litografia de Iluchar Desmons (1850) e uma fotografia de Marcel Gautherot (1960), ambas retratando a praia de Botafogo, no Rio.

A diferença entre a produção de cada uma das obras era de quase 100 anos e daí o tema sugerido: “E daqui a 100 anos?” Os alunos deveriam discutir como seria o Rio de Janeiro em 2050, criando em seguida trabalhos em várias linguagens, como desenho, pintura, poesia e maquete. As escolas ficavam livres para conduzir a proposta como quisessem.

Uma seleção dos trabalhos resultantes ficou em exibição no IMS, juntamente com um vídeo que mostrava algumas etapas do processo desenvolvido com os alunos.

Os trabalhos em si eram interessantes (veja ao lado duas fotos, acompanhadas das minhas desculpas pela falta de foco) – alguns desenhos e escritos mais óbvios; outros, muito criativos. Foi bom de ver.

Mas depois, sentada na casa de chá sob o efeito de café e bolo, reavaliei o que vi. Faltava só um pouco para aquela se tornasse uma exposição muito inspiradora. Ficam aí, portanto, as sugestões:

1) Para a gente realmente entender o trabalho feito nas escolas, cada trabalho poderia vir acompanhado dos temas que foram trabalhados com aquela turma específica. A partir das duas fotos, o que aquela escola/coordenação/professora identificou para discutir com as crianças? Que temas surgiram a partir de cada obra de arte? Com isso, nós (o público) endenderíamos melhor que proveito os educadores tiraram da proposta original do Moreira Salles; e que assuntos os alunos começaram a entender melhor depois do projeto.
Nada de textos longos e rebuscados. Bastariam algumas palavras-chave, ou um textinho bem resumido. Assim, seria possível entrever o quanto o universo daquelas crianças se ampliou com o trabalho realizado. E é isso que importa, certo?

2) Um dado curioso nos trabalhos das crianças foi que nenhum deles trabalho mostrava seu autor como agente ativo daquela visualização. Os desenhos, maquetes etc. mostravam o mundo do futuro como uma Terra sem poluição, em paz, bonita. Eram sonhos, desejos, expectativas. Mas não me recordo de ver as crianças dizendo “Nós vamos fazer um mundo mais bonito porque não vamos jogar lixo na calçada de nossa casa; porque vamos sempre conversar em vez de partir para a agressão física; porque vamos adotar um cão em vez de comprar um da loja”. Essa ausência é muito eloquente e parece atestar que a questão da responsabilidade individual e coletiva não foi importante para as escolas envolvidas.

No mais, deixo os parabéns ao departamento educativo do IMS, esperando apenas que nossas escolas se lembrem que sonhos são muito bonitinhos. Mas eles só se tornam realidade se a gente se esforça para isso. E essa lição – da necessidade de um grande esforço pessoal para se alcançar o bem individual e coletivo – é provavelmente a mais fundamental lição que um ser humano pode aprender na vida.

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