Visitei a exposição de Louise Bourgeois no MAM-Rio

Fui ver a exposição de Louise Bourgeois no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Um espetáculo, vá ver.

São desenhos, esculturas e instalações que mexem com o espectador lá dentro, lá estão nossos traumas, medos, valores. Mesmo para você, que não teve problemas sérios com seus pais quando criança, a mostra será, no mínimo, desconfortante. E sempre que alguma coisa nos faz sair da nossa zona de conforto, a gente ganha (mesmo sofrendo um pouquinho no início).

Lá fora, beeem longe da entrada do MAM (não sei bem o porquê, achei que ela estaria logo atrás do museu), está a gigantesca aranha Maman. Impressionante. Radical. Absoluta.

O cenário à volta dela – o Monumento aos Pracinhas, a Igreja da Glória – torna-a ainda mais bonita, ao mesmo tempo que sugere analogias divertidas: o Exército já quis ser o “pai” do povo, a Virgem Maria foi transformada na “mãe de todos”.

A única tristeza da exposição foi não ver (de novo, socoooorro!) nenhuma preocupação em explicar ao público porque Louise Bourgeois criou o tipo de arte que criou. A exposição tem as tradicionais etiquetinhas com título e técnica (algumas tão discretas que uma senhora à minha frente pisou numa e passou direto, à procura de informação). Além disso, só um texto bilíngue assinado pelo curador que, ao espectador médio, leigo, diz… vamos ver… nada.

Louise viveu um pântano, um maremoto, uma avalanche de emoções para dar à luz objetos como os que estão expostos. Embora não se possa querer explicar essas obras detalhadamente (o que, aliás, seria muito chato, se não indelicado com a memória da artista), essa exposição poderia ter sido apresentada ao público de duas formas, pelo menos:

  • Um, com base na história real da artista: por que Louise criou aquelas formas, construções, desconstruções, frases, analogias? O que andava pela cabeça dela? Que traumas ela passou? Que referências reais podemos encontrar na obra exposta?
  • Outro, psicanalítico: a arte como forma de escape. Segundo o curador da mostra, o francês Philip Larratt-Smith, isso vem tratado na exposição. Pode ser, mas eu aqui falo do povo comum, aquele que mal sabe a diferença entre Jung e Freud, entre neurótico e paranóico, com que linguagens a arte contemporânea lida. O connoisseur vai juntar o que ele já sabia antes de sair de casa com o que ele vê, vitrine após vitrine, painel após painel. E vai fazer as suas ligações de forma coerente. O leigo (sobretudo o leito que já não tem cultura de base, que é o normal no Brasil) olha aquilo tudo e fica estarrecido, talvez interessado… mas não faz as ligações. Não tem como fazer.

Continuo achando e defendendo que, sem cair no extremo oposto do exagero de informação, as exposições ainda pecam muito por não estabelecer com o público comum uma boa conversa, na língua dele, público comum.

Se não, acabamos ouvindo – como eu ouvi – um rapaz de seu 17 anos olhando Maman boquiaberto e perguntando para o amigo:

“E ela anda?!”

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